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O dinheiro no amor

Por Washington Castilhos

Em seu artigo Dinheiro, poder e sexo, a socióloga Viviana Zelizer, professora de Sociologia da Universidade de Princeton, aponta que a crença generalizada de que o dinheiro corrompe a intimidade bloqueia nossa capacidade de descrever e explicar como dinheiro, poder, e sexo, de fato, interagem. Segundo ela, a crença oposta – de que o sexo funciona como uma mercadoria como qualquer outra – não seria melhor para ajudar descrições e explicações.

Para o antropólogo Thaddeus Blanchette, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), relações emocionais interpessoais e transações econômicas são inseparáveis. “Mesmo na prostituição, onde ambas as partes tendem a fazer tudo para evitar o amor, nada é mais comum do que uma prostituta se apaixonar pelo cliente ou vice versa. E nada é mais comum no matrimônio do que alguém ficar com seu parceiro ou parceira por razões econômicas”, afirma ele, nesta entrevista concedida ao CLAM.

Por mais de cinco anos, Thaddeus desenvolveu, juntamente com a pesquisadora Ana Paula da Silva, uma pesquisa antropológica envolvendo prostitutas e clientes da região sul-sudeste do Brasil. A etnografia incluiu desde pontos de prostituição na orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, a clubes noturnos de São Paulo. Foram investigadas diversas modalidades da atividade, como os pontos de rua, casas de massagem, bares, praias, serviços de call girls, escorts e agências, além da chamada "girlfriend experience".

O prazer do sexo sem amor seria a razão da existência do pânico moral em torno da prostituição e da ideia de vulnerabilidade das pessoas que se prostituem?

Bom, não sei, não, porque ao homem quase sempre foi permitido fazer sexo por prazer. O problema tem mais a ver com a idéia da mulher ser a própria dona de sua capacidade sexual/reprodutiva. As/os abolicionistas e proibicionistas falam muito sobre como a prostituição é "escravidão". Sem dúvida alguma, acontecem grossos abusos dos direitos das trabalhadoras sexuais dentro do mercado de sexo comercial, assim como acontecem grossos abusos dos direitos dos trabalhadores em geral. É interessante que, para essas pessoas, a solução é sempre a intervenção do estado, tipicamente através da polícia ou do aparato da assistência social, para "resgatar" essas mulheres - tal resgate sendo a prisão ou a detenção e a sujeição delas a regimes especiais de controle. Então, para essas pessoas, é preciso que a sexualidade da mulher tenha algum controlador, algum "dono". Muitos pensam que essa sexualidade deve ser sujeita ao controle familiar. Outros afirmam que é o estado que tem que garantir que a mulher não aja inadequadamente em termos sexuais.

Digo "mulher", porque os/as abolicionistas e proibicionistas quase nunca falam em prostituição masculina ou trans. Mas de qualquer maneira, quase nunca há a preocupação sobre o gozo do homem. Ao homem, sempre foi permitido o sexo sem amor. Essa proibição do sexo sem amor é quase só e unicamente direcionada à mulher. E é notável que determinadas feministas e os grupos religiosos mais conservadores têm chegado a um consenso sobre esse ponto. Isto tem muito a ver com o pensamento kantiano sobre sexo e prostituição. Kant conseguiu secularizar e naturalizar uma determinada visão, essencialmente cristã, sobre sexo e prostituição, que passou adiante por Simmel e daí para boa parte das ciências sociais (particularmente as oriundas da Escola de Chicago) e, através do feminismo norte-americano da segunda onda, para uma ampla gama de tendências feministas.

A visão de Kant sobre o sexo é a seguinte: ao se dar, a mulher entrega-se inteira e completamente ao seu parceiro, transformando-se, portanto, em sua escrava. A única defesa, para ela, seria o casamento monogâmico, pois isto colocaria o homem sob o poder da mulher e aí os dois se transformam em escravos um do outro - uma espécie de escravidão recíproca. Pensadoras feministas norte-americanas como Dworkin e McKinnon avançaram nessa hipótese ainda mais, criticando (a meu ver, justamente) a instituição do casamento monogâmico em condições patriarcais como algo que poderia "salvar" a mulher da escravidão. Mas Dworkin e McKinnon mantiveram a tese essencial de Kant que, no câmbio sexual, a mulher se coloca em perigo não só física, mas existencialmente.

Portanto, na base do pensamento ocidental moderno (particularmente em algumas de suas vertentes feministas, científico-sociais e biomédicas), há uma forte tendência de se enxergar o sexo sem casamento como algo particularmente nocivo à mulher. Devemos lembrar que na consolidação do mito romântico da família burguesa no final do século XIX, o "casamento" vira quase sinônimo de "amor" na ideologia hegemônica sobre esses assuntos.

O feminismo americano das décadas de 1970 e 1980 (que forma a base das ideologias de grupos como a Marcha Mundial das Mulheres) detonou a ideia do casamento como instituição salvadora, mas não questionou a visão kantiana/cristã do sexo como algo especificamente perigoso para a mulher. Continua com a visão "dramática" e essencialmente nociva do ato sexual, enquanto praticada por mulheres com homens. Para essas mulheres, sexo heterossexual era, em si, algo extremamente perigoso para as mulheres sob as condições atuais de patriarquia. Chegam à beira de qualificar o sexo heterossexual como equivalente ao estupro. Só no mundo idealizado do futuro, "pós-revolução", é que poderíamos nos engajar em relações heterossexuais que não seriam, por essência, violentas e opressivas. Ou seja, esse tipo de feminismo vai além do cristianismo em sua idealização da relação sexual. Se para Kant e os cristãos o casamento poderia "domesticar" o sexo, fazendo-o "seguro para as moças", para Dworkin e McKinnon só a implementação de uma utopia radical poderia recuperar aquilo que convencionamos chamar de "sexo heterossexual".

Em suma: as duas tendências contemporâneas ideológicas mais poderosas (eu diria hegemônicas, no sentido Gramsciano) no campo da filosofia sexual – o cristianismo e o feminismo – têm grandes investimentos na ideia do sexo heterossexual como algo extremamente perigoso para a mulher. Existem outros feminismos que desafiam essa visão, é claro, mas esses não têm o poder daquilo que eu chamo de "feminismo pornofóbico", particularmente em termos de sua inserção no campo das políticas públicas referentes ao sexo. A única grande tendência filosófica que eu vejo como "desafiadora" desse consenso hegemônico – segundo o qual a sexualidade feminina deve ser controlada (para seu próprio bem) – é aquilo que convencionamos chamar de "pensamento queer". Não é à toa, então, que existe uma certa aliança entre essa tendência, o feminismo anti-pornofôbico e os grupos que lutam pelos direitos das trabalhadoras sexuais.

E, é claro, se a base de sua visão filosófica sobre o sexo é que a mulher é – por natureza (Kant e os cristãos) ou por conjuntura histórica (as feministas pornofôbicas) – singularmente vulnerabilizada por atos sexuais heterossexuais, então faz total sentido entender as mulheres que não são sujeitas ao controle masculino ou do Estado - as prostitutas - como eternas escravas, traficadas, vítimas etc. Nessa visão de mundo, mulher que é heterossexualmente ativa tem que ter um dono. Daí vem a fé infinita das/os proibicionistas e abolicionistas que toda prostituta tem que ter um cafetão. E, é claro, existem algumas que têm. Mas na minha experiência, são a minoria absoluta, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, se por "cafetão" queremos dizer alguém que escraviza a prostituta e é "dono" de sua capacidade reprodutiva/sexual.

Há uma crença comum de que a mercantilização corrompe a intimidade sexual e esses dois domínios pertenceriam a duas esferas separadas: assim, uma atividade econômica como a prostituição estaria ligada à racionalidade mercantilista, enquanto o amor estaria ligado a uma outra esfera, a do sentimento. É possível essas esferas interagirem?

Essas esferas não só interagem, mas - como os trabalhos recentes de José Miguel Nieto e Adriana Piscitelli demonstram - elas são absolutamente inseparáveis. E mais: sempre foram inseparáveis. Essa confusão das esferas de sexo e mercantilização não é algo criado pelo capitalismo ou mesmo intensificado pelo capitalismo. Aliás, pode-se argumentar que é o nascimento do capitalismo que cria a idéia da "esfera íntima" como algo sagrado e posto à parte das considerações vis e mundanas de dinheiro, economia etc. Eu diria que as pessoas que acham que essas duas esferas são separadas ou estão se "contaminando" graças ao capitalismo precisam mergulhar mais profundamente na arqueologia da família, do casamento e do casal.

Ouve-se muito a afirmação que o capitalismo estaria "intensificando a exploração da sexualidade". Talvez, se levarmos em consideração que o capitalismo intensifica a exploração de tudo. Mas, como muitos antropólogos têm demonstrado – como Leví-Strauss, Sherri Ortner e David Graeber –, a capacidade sexual/reprodutiva foi sempre um bem de troca. Talvez o primeiro deles. Sempre trocou-se pessoas, particularmente mulheres, na construção de casais reprodutivos, e essas trocas eram quase sempre mediadas por profundos interesses econômicos. Uma coisa que estou estudando ultimamente é quantos rituais comerciais, em várias culturas humanas, necessariamente envolviam trocas sexuais, através da troca de mulheres em forma de esposas ou através da simples trepada. Quando você começa a mergulhar nas etnografias clássicas inglesas e americanas dos séculos XIX e do início do século XX, esses tipos de trocas aparecem em todo lugar. Sexo sempre fazia parte dos bens trocados entre seres humanos e essa "comercialização" do sexo existe muito antes do capitalismo e muito antes até do estabelecimento da agricultura, do patriarcado etc. Para a grande maioria dos seres humanos, amor, sexo e intimidade não são separados e nunca foram.

O amor pode então coexistir com o sexo por dinheiro? Relações íntimas podem coexistir com transações econômicas?

Relações emocionais e relações econômicas são inseparáveis. Mesmo na prostituição, onde ambas as partes tendem a fazer tudo para evitar o amor, nada é mais comum do que uma prostituta se apaixonar pelo cliente ou vice versa. E nada é mais comum no matrimônio do que alguém ficar com seu parceiro ou parceira por razões econômicas.

O amor se constrói nas relações interpessoais e na troca de substâncias. Amor é, essencialmente, uma relação social, independente de suas vivências interpessoais e subjetivas. Dessa maneira, o "amor" é constituído por uma série de comprometimentos, aproximações e negociações, muitas vezes econômicas. O pai de família tradicional leva seu cheque para casa e paga o aluguel e a cesta da família porque ama sua mulher e filhos. A mulher turista estrangeira que namora um capoeirista na Praia de Iracema o "ajuda", comprando-lhe uma prancha de surf. O cliente de prostituta no Rio de Janeiro, descobrindo que sua prostituta favorita está com o filho doente em casa, passa um adicional para ela "por compaixão". Até nos namoros mais banais e corriqueiros, uma pessoa indica seu interesse sexual/afetivo por outra pessoa, oferecendo-lhe um drinque. Se por “prostitutos/as” queremos dizer "pessoas interesseiras que combinam sexo e trocas econômicas", então, enfim, somos todos "prostitutos/as".

Ou, como eu gosto cada vez mais de dizer, prostituta não existe: é um termo êmico, não ético, ou melhor ainda, uma acusação. Existem pessoas - quase a totalidade dos seres humanos sexualmente ativos - que combinam afeto e sexo com considerações econômicas; que constroem o afeto através de trocas econômicas e sexuais, que usam as trocas econômicas e sexuais como comprovantes do amor e afeto. E, desse mar de gente, fazemos uma seleção e confirmamos que essas são "putas" porque não fazem uma performance que consideramos moralmente adequada, referente à mistura de afeto e interesse. Aí, o Estado entra nesse jogo e, com seu poder, reifica a categoria "prostituta", usando-a como justificativa para aplicar um regime especial de (bio)poder em cima de determinadas pessoas e grupos.

Publicada em: 10/10/2013



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