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O Rei Momo e o Arco-Íris

O que é carnaval? Como entender esta festa que interrompe as atividades cotidianas no Brasil a cada ano? Por alguns dias, blocos e escolas de samba competem entre si com enredos caríssimos e efêmeros, enquanto homens e mulheres se rendem aos prazeres da carne. No livro O Rei Momo e o Arco-Íris: homossexualidade e carnaval (CLAM/Garamond), que será lançado no dia 18 de fevereiro de 2009, às 19h, na Livraria DaConde (rua Cde Bernadotte, 26, loja 125, Leblon) , o antropólogo Fabiano Gontijo (UFPI) procura compreender os significados do carnaval, especificamente para aqueles “que mantêm relações sexuais preferencialmente com pessoas do mesmo sexo”. A definição, segundo o autor, permite manter clara a distinção entre desejos e práticas sexuais, por um lado, e as identidades, por outro. Nesta entrevista, Fabiano Gontijo revela os questionamentos que o levaram a realizar a pesquisa que resultou no livro, avalia as conseqüências sociais e culturais da AIDS e destaca como o ritual carnavalesco abre caminho para uma maior permissividade e visibilidade da homossexualidade. “O ritual cria experiência”, afirma o autor, acrescentando ser esta uma das maiores lições que a Antropologia o ensinou.

O livro será lançado no dia 18 de fevereiro, no Rio de Janeiro.

Quais foram as inquietações que o motivaram a realizar a pesquisa que resultou no livro?

Enquanto cursava a graduação em Sociologia, com ênfase em Etnologia, na Universidade da Provença, no sul da França, comecei a me interessar, de maneira mais crítica, pelos efeitos nefastos da AIDS ao meu redor, na vida social da qual eu fazia parte. Em minhas leituras dos textos que problematizavam a AIDS naquele momento, início da década de 1990, eu me dei conta de que, mais do que simplesmente um vírus, a tal “pandemia” envolvia uma série de representações, imagens, pensamentos, percepções, matrizes de classificação, enfim, uma série de elementos simbólicos que constituíam um contexto social bem particular. Cheguei à conclusão de que a AIDS, em suas conseqüências sociais e culturais, estava contribuindo para a estruturação de um certo modelo de sociedade: qualquer pesquisa que eu fizesse, principalmente aquelas que tratariam dos aspectos simbólicos e representacionais dos corpos, das relações de gênero e da sexualidade, teria que levar em consideração esse contexto. Nesse momento, eu precisava realizar uma pesquisa para meu trabalho de conclusão de curso. Procurei entender como se organizavam aqueles territórios extremamente identitários freqüentados por homossexuais nas praias do Rio de Janeiro, em particular aquele situado em frente ao Copacabana Palace Hotel e conhecido pelos freqüentadores como “Bolsa de Copacabana”. Minha preocupação era a de compreender como aqueles homossexuais se serviam daquele espaço-tempo de sociabilidade da praia para formular e reformular suas identidades, tendo as conseqüências sociais e culturais da AIDS como pano de fundo. Minha imersão naquele mundo de corpos seminus, porém marcados socialmente, me fez entender outra coisa: aqueles homossexuais se construíam, em termos identitários, por comparação ou por oposição com os homossexuais freqüentadores de um outro território identitário, aquele da praia de Ipanema, em frente à Rua Farme de Amoedo. Eu estava diante de dois “mundos”, com suas práticas, suas regras, suas singularidades... Copacabana, bairro decadente, tinha em seu território “gay” uma grande diversidade de tipos ou “imagens identitárias”, como passei a chamar a partir de então, típica da efervescência social do final da década de 1970 e do início da década de 1980. Ao passo que Ipanema, bairro em voga, tinha em seu território “gay” menos diversidade e muito mais homogeneidade em suas “imagens identitárias”, basicamente representadas por corpos “malhados”, “definidos”, típicas da década de 1990... Por um lado, os corpos afeminados e marcados pelas inúmeras aplicações de silicone e outros produtos das travestis e transexuais, os corpos morenos e moldados pelo serviço militar obrigatório dos boys e michês, os corpos peludos e envelhecidos das mariconas, etc. Por outro, os corpos masculinizados construídos em academias de ginástica, os corpos sadios e “energizados” oriundos das preocupações com a saúde individual... Na verdade, aquilo era a ponta de um iceberg, a ponta do meu iceberg de observação: eu estava diante de dois modelos societais, um “moderno”, pré-AIDS, e um modelo “pós-moderno” ou “supermoderno” ou sei-lá-o-que, pós-AIDS. Tentei aprofundar essa oposição estrutural na dissertação de mestrado. Lembrei que meus entrevistados falavam com muita freqüência do carnaval, o tempo todo, e eu via, durante o carnaval, a maneira singular como se comportavam. Algo acontecia que eu não sabia ainda explicar ou interpretar... Por que tantos homossexuais gostavam do carnaval e consideravam aquele o momento mais importante do ano? Foi quando, aprofundando minhas leituras de teoria antropológica, com a ajuda de meu orientador na École des Hautes Études en Science Sociales (EHESS), Michel Agier, fui levado a perceber a importância dos espaços-tempos rituais para a formulação das identidades. Limitei meus trabalhos de dissertação de mestrado e de tese de doutorado ao estudo de alguns espaços-tempos rituais que me pareciam, em hipótese, realmente fundamentais para a formulação e a reformulação das identidades homossexuais no contexto do Rio de Janeiro: os ensaios e desfiles das escolas de samba, as “saídas” dos blocos e bandas, os bailes e festas carnavalescas. Ao longo da segunda metade da década de 1990 e da primeira metade da década de 2000, etnografei a fundo essas “situações” rituais do carnaval carioca, não só para a dissertação e para a tese na EHESS, mas também para o estágio de pós-doutorado, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Como foi a experiência de mergulhar no universo do carnaval carioca?

Toda pesquisa etnográfica envolve dor e prazer. No meu caso, acho que foi mais prazeroso do que doloroso. Pelo fato de ter ido muito jovem realizar meus estudos na França, eu me sentia meio estrangeiro quando lançava meu olhar para as coisas do Brasil. E foi meio assim que mergulhei no carnaval, como alguém que pouco conhecia aquela realidade e, sobretudo, alguém que não tinha muito a ver com carnaval... Apoiado na noção de “situação social”, escolhi um conjunto de situações sociais do carnaval carioca para, a partir de observações in locu, buscar elementos que levassem a interpretações plausíveis sobre a relação entre homossexualidades identitárias e ritualizações carnavalescas. O carnaval carioca é constituído por uma série de situações, como os ensaios e os desfiles das escolas de samba, as “saídas” dos blocos e bandas e os bailes e festas alternativas. De 1995 a 2002, freqüentei e observei, de maneira sistemática, centenas de ensaios de escolas de samba de todos os tipos (ensaios de “curtição”, ensaios “técnicos”, ensaios de bateria, ensaios de baianas, etc) e fui, durante quatro anos, aos desfiles no Sambódromo para examinar e fotografar, principalmente, os “bastidores” da festa, ou seja, a “concentração” e a “dispersão” das escolas, além de ter convivido assiduamente com os preparativos dos desfiles em ateliês e “barracões”. Em O Rei Momo e o Arco-Íris, não trato das escolas de samba, devido à enorme quantidade de informações coletadas, optando por uma publicação posterior específica sobre essas situações sociais. No livro, apresento alguns resultados sobre as situações bem conhecidas dos cariocas, mas pouco estudadas de maneira sistemática: os blocos e bandas que compõem o chamado carnaval de rua e os bailes e festas alternativas que fazem o carnaval de salão. Participei de centenas de “saídas” de blocos e bandas pelas ruas dos bairros de todas as zonas da cidade do Rio de Janeiro e de Niterói, prestigiando, para fins de análise, a pioneira Banda de Ipanema e uma de suas dissidentes, a Banda Carmen Miranda. Esta última surgiu no mesmo momento em que despontou o Simpatia É Quase Amor, uma das bandas-sensação da década de 2000, juntamente com o Suvaco de Cristo, também como dissidência da Banda de Ipanema: a primeira, estruturando-se como uma banda abertamente homossexual, enquanto a segunda, como uma banda mais “alternativa” e menos “pop”, ou, por que não dizer, menos gay do que a banda-mãe. Buscamos, no livro, mostrar como o carnaval de rua do Rio de Janeiro parte dos cordões, ranchos e blocos, no início do século XX, e chega à criação, na década de 1960, por intelectuais, jornalistas e artistas, moradores da zona sul da cidade, da Banda de Ipanema, tão exaltada por homossexuais na década de 1970 e, a partir da década de 1980, inchada, geradora de inúmeras bandas, transformando-se na pioneira de um modelo novo de carnaval. O que representou a Banda Carmen Miranda, ao longo da década de 1990 até seu desaparecimento, para aqueles indivíduos que freqüentavam suas coloridas, divertidas e animadas “saídas”? E a Banda de Ipanema, o que representa, ao longo da mesma década e na década atual? As respostas estão no livro.

Quanto aos bailes e às festas alternativas, tentei mostrar como, ao longo do século XX, alguns bailes realizados em teatros vão se tornando a “coqueluche” do tríduo momesco e, em particular, como é que alguns desses bailes se difundem como “abertamente” homossexuais, ainda que os termos usados para designar os homens que mais visivelmente mantinham relações sexuais com outros homens e constituíam suas identidades afeminadas a partir dessa prática variassem de acordo com o momento: almofadinhas, enxutos, bonecas... Chega-se, por exemplo, no final da década de 1970 e no início da década de 1980, a uma presença bastante louvada e divulgada pela mídia de travestis, transformistas e caricatas aos principais bailes da cidade. Muitas são as fotografias publicadas na prestigiadíssima revista Manchete nesse período. Na década de 1990, assim como para as bandas, acontece algo interessante com os bailes: começam a ser realizadas, em locais muitas vezes insólitos, festas que se diziam alternativas à folia carnavalesca do samba, onde se escutava música eletrônica tocada por DJs e a animação ficava por conta, não mais de caricatas e transformistas, mas de drag queens. Os maiores organizadores, divulgadores e freqüentadores desse tipo novo de festas carnavalescas alternativas eram, precisamente, aqueles freqüentadores do território “gay” da praia de Ipanema: a “geração saúde”, a turma “muderninha”, os “barbies”, os tais “GLS”... A revista Manchete perde o status de veículo maior de difusão de imagens impressas do carnaval e, no que resta da revista, os bailes perdem o espaço privilegiado... ao mesmo tempo em que ganham espaço, na cidade, as festas alternativas “anunciadamente” gays! Gays? Não... Melhor, “GLS”. Escolhi duas situações do carnaval de salão para tratar mais detalhadamente no livro, por se tratarem de situações “abertamente” homossexuais: os bailes realizados numa grande casa de espetáculos da cidade, mais voltados para travestis, e as festas organizadas numa gafieira do centro da cidade, mais voltados para “barbies” e “boys”.

Você comenta no livro que durante o carnaval há uma maior permissividade e visibilidade da homossexualidade. Acredita que esta experiência abre a possibilidade de haver uma maior integração ou aceitação das diferenças para além dos quatro dias de folia?

O que observei nessas situações que cito acima é que “esse” carnaval bem particular que eu descrevo não parece funcionar igualzinho àquilo que a literatura acadêmica sobre o carnaval brasileiro vem propondo ou impondo... Carnaval, rito de passagem e de inversão, como pregou brilhantemente Roberto DaMatta? Carnaval, exacerbação recontextualizada e ritualizada das fraturas, mazelas e desigualdades sociais brasileiras, como avançou severamente Maria Isaura Pereira de Queiroz? Ambas as interpretações me parecem boas, mas incompletas ou até mesmo injustas. Carnaval é rito de inversão, sim, mas também de perversão, de transversão, de reversão, de contraversão, de aversão, de intraversão, de diversão... Ritual é versão e, como tal, verte sobre algo... Quando uma banda passa, pessoas que estão nas imediações correm para ver a banda, remexem o corpo ao ritmo da música, mas outras pessoas fogem da banda ou ficam a observar de longe, às vezes do alto de seus apartamentos, refletindo sobre e espantando-se com o que está acontecendo... No meio da banda, corpos suados e seminus se esfregam uns nos outros com sensualidade e tesão, cervejas e bebidas alcoólicas e cigarros e certas substâncias alucinógenas são ingeridos a dois passos de policiais que tentam controlar o trânsito e a multidão, vendedores ambulantes empurram violentamente seus carrinhos pensando em maximizar seu lucro, jovens ladrões passeiam suas mãos entre bolsos e bolsas no afã de encontrar algum dinheiro que lhes permita suprir a necessidade de cola de sapateiro, turistas que fotografavam a paisagem da praia coroada pelo Morro Dois Irmãos são pegos de surpresa no turbilhão enlouquecedor... Enquanto isso, do outro lado da cidade, um traficante está reunido com seus súditos para distribuir a droga recém-chegada em seu feudo e saudar um grupo de novos “aviõezinhos”, fiéis evangélicos estão pregando a palavra do Senhor na Praça Quinze e discutem com um grupo de foliões embriagados que estava a caminho de casa em Niterói, garis estão limpando a sujeira deixada pelos blocos na noite anterior na Avenida Rio Branco e conversam sobre a “popozuda” estampada na capa da última Playboy, três porteiros nordestinos de uma mesma família estão se despedindo de seus parentes na rodoviária antes de embarcar de volta para Ipu, enfim... A vida continua friamente para muita gente, sem inversão, mesmo para alguns que estão no centro do calor da folia. Para aqueles homossexuais que estão no meio de uma banda, por exemplo, algumas coisas parecem que podem ser feitas ali, naquele momento e naquele lugar, e que não poderiam ser feitas, seja naquele lugar mas em outros momentos, seja naquele momento mas em outro lugar... O ritual permite isso, permissividade... Quem está de fora, vê coisas que não veria em outros momentos: senhoras que saem da missa de 16hs na Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, em pleno domingo de carnaval, se deparam, meio que sem querer, com a banda passando e, no interior da banda, trenzinhos de homens se beijando. Ficam chocadas? Talvez, num primeiro momento, sim. Fingem que não vêem, mas as imagens atormentam sua memória ao longo do ano. Mas, acabam se habituando com a visão e se chocam menos das próximas vezes. Pois, sabem que... ali é carnaval! Mas, ao longo do tempo, essas senhoras percebem que aquele beijo é forma de demonstração de carinho, da mesma forma que aqueles rapazes que se beijavam ali e naquele momento começam a se beijar também fora dali e daquele momento: visibilidade. O ritual cria experiência. Essa é uma das maiores lições que a Antropologia me ensinou.

No livro você critica as reivindicações relativas à legalização de fato da união civil entre homossexuais e afirma que grande parte dos homossexuais adapta-se ao sistema hierárquico de gênero. Poderia desenvolver essas questões?

Termino o livro com uma análise crítica, ainda que bem cheia de lacunas e humilde, da maneira como os movimentos sociais de gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros estavam pautando suas reivindicações ao longo da década de 1990. Tenho tentado demonstrar em outros trabalhos, publicados ao longo da década de 2000 e instigados pela minha relação com os movimentos homossexuais piauienses, que políticas de (re)distribuição devem necessariamente se alinhar a políticas de reconhecimento, como sugere Nancy Fraser. Ou seja, não bastaria um conjunto de leis que assegurassem certos direitos a homossexuais se não houvesse, paralelamente, uma espécie de “trabalho cultural” para fazer com que muitas pessoas não mais se choquem diante de um beijo público entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo. Não sou contrário às reivindicações dos movimentos homossexuais, nem poderia ser, pois ajudei na estruturação dos movimentos homossexuais piauienses. Nem sou contrário à legalização da união civil entre homossexuais. Tenho visto, em algumas discussões de certas parcelas dos movimentos homossexuais, uma tentativa perigosa, a meu ver, de adequar ou adaptar suas experiências da conjugalidade e da parentalidade àquelas delimitadas, até então, pela heteronormatividade caduca... e, logo, reproduzindo o sistema hierárquico de gênero. Minhas pesquisas atuais e as pesquisas de alguns colegas, como Anna Paula Uziel, Luiz Mello e Miriam Grossi, vêm mostrando formas de conjugalidades e de parentalidades bastante diferentes, porém muitas vezes ainda consideradas mais ou menos ilegítimas. É necessário, no entanto, que a valorização e o respeito da diversidade cultural, em todos os seus aspectos, sejam divulgados como um princípio básico da vida social nos dias de hoje.

Segundo suas palavras, no Brasil somente o modelo econômico tenta realmente integrar os homossexuais à “normalidade”. A que atribui isto?

A categoria “GLS”, gays, lésbicas e simpatizantes, teria sido forjada em meados da década de 1990 para designar, parece-me, não somente gays e lésbicas, mas sobretudo esses tais “simpatizantes”. Escrevi um artigo sobre esses simpatizantes para o Boletim Sexualidade, Gênero e Sociedade, do IMS/UERJ. Esperava que fosse ter certa repercussão, mas, curiosamente, não teve. Sem me aprofundar muito aqui, eu percebi, já na tese que agora vira livro, que na economia de mercado global, com seus mecanismos de exclusão e também de inclusão, a pauta da “política das identidades” e a diversidade cultural pareciam ter certa posição privilegiada, dentro de certos limites, claro. O termo “GLS” é forjado para dar conta de uma parcela do mercado, baseando-se, talvez, na idéia de que o consumo, mais do que a produção e a distribuição, é a atividade mais prestigiada da economia no mundo de hoje. E o consumo identitário ainda mais, principalmente nessa “era do reconhecimento” que caracteriza nosso tempo. No entanto, partes dos movimentos homossexuais têm dificuldade em aceitar o mercado como possível lugar de redenção ou, melhor, como elemento-chave na estruturação identitária. Daí o fato, por exemplo, de essas partes dos movimentos homossexuais rejeitarem o termo “GLS” e, até certo ponto, negarem a existência de algo que pudesse ser designado como “simpatizantes”. Não desenvolvo essa discussão no livro, mas deixo um questionamento que será aprofundado mais tarde, por mim ou por outros.

Publicada em: 12/02/2009

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