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A diversidade do mundo L

Há cinco anos, a antropóloga argentina Andrea Lacombe (MN/UFRJ) se debruça sobre as diferentes sociabilidades lésbicas. Em sua dissertação de mestrado, defendida em 2005 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, do Museu Nacional/UFRJ, Lacombe centrou-se na masculinidade de mulheres, isto é, nas práticas performáticas que a princípio seriam pensadas como próprias e particulares dos homens e que, nesses casos, são reapropriadas por mulheres para desenvolver sua apresentação de gênero, sem que por esse motivo deixem de considerar a si mesmas como mulheres. A ser defendida ainda este ano, sua tese de doutorado versará sobre as subjetividades possíveis entre mulheres que têm relações homoeróticas. Em ambas as pesquisas, no entanto, a antropóloga prefere ressaltar que o termo “lésbica” não aparece como modo de auto-definição ou de referência entre suas informantes.

“As mulheres que entrevistei não se sentem representadas com a palavra ‘lésbica’ ou ‘lesbianismo’, por considerá-las fruto do discurso médico e político. Particularmente, penso que este termo não é tão inclusivo quanto outros como ‘entendida’ ou ‘do babado’, comumente usados por elas mesmas por darem um sentido de pertencimento”, diz Lacombe.

Sua crítica não é direcionada somente aos termos semânticos, mas também ao sistema representativo de se fazer política que, segundo a pesquisadora, cria o que ela chama de ‘compartimentos estanques’ (políticas públicas, espaços de sociabilidade, datas especiais) para sujeitos particulares com necessidades específicas.

Pesquisas sugerem que, assim como as outras identidades LGBT, as lésbicas (o L da sigla) têm suas especificidades, não sendo um grupo tão homogêneo o quanto se supõe. Não são iguais umas às outras e muitos sustentam a existência de um L world. De que forma sua pesquisa contempla a multiplicidade de sujeitos existentes dentro dessa identidade?

Primeiramente, eu não falaria em ‘mundo’ senão em ‘mundos’ L. Aliás, até o “L” está sob suspeita, já que no campo da minha pesquisa a palavra lésbica não possui carga semântica, está vazia de significado, não faz parte do contexto discursivo. Tanto na minha pesquisa de campo de mestrado – sobre masculinidades de mulheres – como na de doutorado – sobre os diferentes modos em que mulheres que têm relações homoeróticas vivenciam sua sexualidade –, ambas no Rio de Janeiro, este termo não aparece como modo de auto-definição ou de referência. Entendida, do babado, gay, sapatão, mulher que gosta de mulher são diferentes denominações que expressam uma multiplicidade que, por sua vez, têm algumas características comuns. O interessante é o modo em que estas semelhanças se desenham e alinhavam, ancoradas basicamente na idade e na apresentação de gênero como vetores de aproximação e cruzamento. Com ‘apresentação de gênero’ refiro-me aos marcadores físicos presentes tanto na vestimenta quanto na linguagem corporal, quer dizer, a forma com que essas mulheres se colocam no mundo. Esta convergência entre estilos que pressupõem diferentes subjetividades implica negociações que desenham critérios de normalidade no interior dos grupos e entre eles. Por sua vez, a idade como marcador denota diferentes pautas, centradas basicamente na concepção de intimidade. Neste sentido, os diferentes graus de exposição pública, como os atos de carinho, por exemplo, variam entre as mais jovens e as mais velhas, denotando diferenças no interior da própria homossociabilidade, em consonância com pautas culturais de geração, mais do que particularismos entre hetero e homossociabilidade.

Por esses motivos, acredito que conceber uma homogeneidade amparada sob o guarda-chuvas da palavra lésbica é, para mim, um problema a ser colocado tanto na arena política, quanto na construção categorial e teórica que se afasta do que acontece na cotidianidade das pessoas.

Qual a importância de um dia específico para a visibilidade lésbica?

Primeiramente, é preciso pensar o porquê da necessidade de ter que dar visibilidade a um assunto que supostamente deveria ficar no âmbito do mundo privado. A questão que está por trás deste dia é o imperativo social de tornar público um aspecto da vida privada, com o intuito de defender justamente o direito de exercer, de uma maneira visível, atos da esfera íntima. Esta demanda de tomar conta do próprio corpo coloca a sexualidade como um fator de constituição de determinados indivíduos enquanto sujeitos políticos, a partir de um modo de vivenciar sua sexualidade que não responde às maneiras modelares estruturantes de uma sociedade heteronormativa. Nesse sentido, a fragmentação e os estilhaços em que se decompõe o sujeito político, ao tentar dar conta da diversidade, apagam um fator preponderante: a possibilidade de uma prática sexual além da norma. Isto é, a meu ver, o que realmente deveria ser colocado como reivindicação na arena política. Faço eco à proposta da filósofa espanhola Beatriz Preciado em utilizar a noção ou categoria de multidões como modo de substituir a idéia de minorias sexuais para conseguir estruturar um sujeito politicamente possível, que desatrele a luta política de uma identidade única. Preciado diz que não há uma diferença sexual, mas uma multidão de diferenças, uma diversidade de potenciais de vida que não são ‘representáveis’ justamente por serem ‘monstruosas’. Estas diferenças colocam em xeque tanto os regimes de representação política em si, quanto os sistemas de produção de saber científico dos ‘normais’.

Publicada em: 01/09/2009

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