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A ótica dos clientes

Ao longo de sua carreira acadêmica, a antropóloga Elisiane Pasini realizou pesquisas etnográficas em três universos de prostituição: as ruas centrais da cidade de Porto Alegre (1997/98), a Rua Augusta, em São Paulo (1999) e na Vila Mimosa, no Rio de Janeiro (2004). Neste último, durante o trabalho de campo para sua tese de doutorado na Unicamp, ela caminhou pelos galpões, pelos bares, viveu o cotidiano das pessoas, ouviu histórias de paqueras, de sexo, de violências, dos clientes preferenciais, das negociações. Viu o caminho habitual dos freqüentadores, o que comiam, o que bebiam, as músicas que ouviam. Conviveu com os homens e as mulheres que fazem da Vila Mimosa um dos pontos de prostituição mais famosos não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil. Seu intuito era olhar para os homens que freqüentavam o local e compreender o lugar do masculino naquele contexto.

“Sempre tive curiosidade etnográfica em olhar para o agente não marcado dessa transação – o cliente. Até porque a bibliografia específica incide sempre sobre o agente marcado – a prostituta. A bibliografia sobre os clientes, principalmente a brasileira, trata como se eles fossem invisíveis – o cliente é menos visto, menos falado, menos questionado, em comparação à prostituta”, pontua Elisiane no artigo “Sexo com prostitutas: uma discussão sobre modelos de masculinos”, que faz parte da coletânea Prazeres Dissidentes, publicada pelo CLAM e pela Editora Garamond em 2009. Na entrevista a seguir, a pesquisadora fala como se constroem os modelos de masculino e as relações de gênero no contexto estudado e sobre os modelos de masculinidades que encontrou em seu trabalho de campo.

Por que a escolha do "cliente" como foco de sua pesquisa?

Apesar da grande importância e constante presença dos clientes como parte constitutiva do universo prostitucional heterossexual, esses homens são pouco conhecidos. Por isso, quis investigar os sujeitos consumidores de sexo, o outro da relação da prostituição. Nisso também havia uma demarcação a respeito do lugar da mulher na sociedade. Estava cansada de observar que a atividade da prostituição era vista como se apenas a mulher fosse a responsável, quando na verdade, por se tratar de uma relação, homens e mulheres são. Assim, meu trabalho de campo na Vila Mimosa buscou conhecer os clientes da prostituição daquele contexto. Ora, se tanto se falava nesses homens, era preciso saber quem eles eram.

Em sua pesquisa é utilizada a categoria "homem frequentador" e não "cliente". Existe alguma diferença entre os termos?

Já em minhas primeiras incursões uma questão se impôs: circunscrever o universo de pesquisa na categoria “clientes” era demasiado limitado para dar conta da riqueza e da complexidade que envolvia os homens naquele contexto de prostituição. A procura por relações sexuais é uma, mas nem de longe a principal, dentre inúmeras razões que levavam aqueles homens à Vila Mimosa. Como, então, eu poderia me referir a esta especificidade? Para dar conta desta complexidade, utilizei a categoria “homens freqüentadores”, a qual englobaria a multiplicidade dos laços destes diferentes homens com a Vila Mimosa: sociabilidade, trabalho, relações sexuais.

Nas primeiras incursões ao campo de estudo percebi que o fato de estar em um local no qual a prostituição acontecia, não significava que todos os homens que o freqüentavam fossem, de fato, clientes. Nas conversas e nas observações ficou nítido que, nesse contexto de prostituição, havia outras motivações para os homens estarem ali além da mera busca por sexo. Alguns desses homens estavam naquele local para conversar, beber, olhar as mulheres, enquanto outros mantinham algum tipo de trabalho: donos ou gerentes de estabelecimentos, taxistas, vendedores, entre outros. Toda esta diversidade de homens foi tratada como freqüentadores. A categoria “freqüentador” é uma categoria empírica, que ilumina uma regularidade que está presente em outros locais de prostituição feminina: um masculino que é “entre”, isto é, que está entre uma posição e outra, entre ser e manter um tipo de prática ao invés de outra. Os freqüentadores são aqueles que podem vir a ocupar outro lugar na relação: um cliente, um marido, um protetor, um privilegiado. Trata-se daquele que tem a possibilidade do movimento, da transitoriedade. Todos os homens são freqüentadores e apenas uma pequena parcela destes são clientes.

A principal discussão da tese foi como se constituem masculinidades e feminilidades no universo da Vila Mimosa. De que maneira se constroem os modelos de masculinidades e as relações de gênero no contexto estudado?

É no agenciamento de diferentes elementos (de uns ou de outros) que se formam os diversos modelos de masculinidades. Como foi possível constatar, trata-se de modelos de masculinidades embasados em uma sexualidade essencializada, naturalizada, heteronormativa, e de práticas desiguais de gênero. A zona de prostituição estudada é um espaço com padrões heterossexuais e de gênero que normatizam os comportamentos dos homens e das mulheres, do masculino e do feminino.

Nesse espaço do exercício da prostituição muitos homens se sentem como desprovidos da necessidade de provarem sua virilidade, poder de sedução, desempenho, dentre outras características, em função de uma dita democracia no acesso às mulheres (que no artigo também questiono). Reitero a importância de uma divisão entre as performances das mulheres, entre prostituta e não prostituta.

Também refleti sobre alguns elementos que compunham agenciamentos de diferentes modelos de masculinidades: não pagar para se relacionar sexualmente com uma prostituta; permanecer mais tempo no quarto de programa; receber e demonstrar publicamente os privilégios de uma prostituta; diferenciar-se da figura do cliente; prover mulheres; obrigar a prostituta que se tornou sua esposa a não se prostituir; não sentir ciúme; defender sua honra; relacionar-se com mulheres, e gastar dinheiro com as prostitutas. Ao refletir sobre as razões que levam os homens a procurar prostitutas, penso que os motivos mais importantes seriam a sociabilidade entre homens e a possibilidade de realizar diferentes práticas sexuais com prostitutas.

Tem-se debatido a noção de que toda prostituição constitui uma forma de exploração sexual. Entretanto, seus trabalhos favorecem a compreensão da prostituição como escolha individual autônoma...

Sempre tive como desafio nos meus estudos referentes ao tema do exercício de prostituição desconstruir o preconceito que a sociedade como um todo tem a esse respeito. Busquei observá-la a partir de outros olhares, para além da compreensão de que é uma ação isolada, exótica, perigosa, o mal necessário. E, da mesma forma, demonstrar que as prostitutas não são apenas vítimas da lógica capitalista. Com isso quero demarcar o lugar que me posiciono e compreendo a atividade da prostituição. Entendo a prostituição como um trabalho em que se trocam serviços sexuais por um bem e, assim, se estabelece uma relação econômica. E, além disso, há características de organização para o exercício da prostituição – regras, horários, regularidades, rotinas, preços, contatos – que a estruturam como um trabalho. Entretanto, assim como alerta Cláudia Fonseca em um texto de 1996, “é evidente que a prostituição, com seu status estigmatizado, alvo de repressão policial e censura pelo senso comum, não é uma profissão como qualquer outra”.

Muitas pessoas, ainda hoje, concebem o trabalho das prostitutas como se elas fossem escravas ou mulheres dominadas pelos homens. Defendo que as prostitutas têm autonomia no seu trabalho, no qual elas impõem os limites e os termos da interação com seus clientes. Este olhar coloca a mulher em um lugar de possibilidade de escolha em relação aos seus atos e ao seu corpo. Com isso não afirmo que o poder esteja apenas nas mãos das prostitutas, apesar desse ser o discurso das prostitutas que convivi. Tanto a mulher como o homem tem suas práticas sociais e sexuais dotadas de regras, as quais, são construídas a partir de suas escolhas e comprometimento, em que ambos buscam o agenciamento do seu sujeito social. Portanto, continuar olhando para a prostituta enquanto um sujeito vitimizado desta relação parece colocá-la em um lugar de desprivilégio social. Inclusive, acredito que muitas vezes a prostituta é vista, principalmente pelo senso comum, com tanto preconceito justamente em razão da dificuldade de compreender que a mulher – enquanto sujeito social – tem autonomia do seu corpo: ela pode usá-lo como melhor achar a partir de suas escolhas, o que significa, inclusive, fazer parte do comércio sexual, o que não significa de forma alguma exploração.

O que há de transgressor em ir a uma zona de prostituição?

O fato de se estar em um contexto de prostituição não significa estar desconstruindo normas sociais, não significa estar ressignificando o conservadorismo sexual e, muito menos, a libertação sexual. O fato de se estar em um contexto de prostituição não implica, fundamentalmente, estar “fora” dos padrões heterossexuais e de gênero que normatizam os comportamentos na nossa sociedade. Importa mais separar o que acontece com as esposas e com as prostitutas. Afinal, aqui são regras sociais que gerenciam a sociedade. Para que o universo da prostituição permaneça no imaginário do mal necessário, deverá constar que lá se realiza o diferente. Parece mesmo que no contexto da Vila Mimosa é possível observar a normatização de comportamentos, em que os homens buscam prazeres diferenciados dependendo do contexto onde encontram as mulheres e elas parecem corroborar essa concepção.

Publicada em: 13/04/2010

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