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"Ahora es necesario reinventar"

“Esse negócio de ser mulher é mais difícil do que parecia originalmente”. A frase, da filósofa pós-estruturalista norte-americana Judith Butler, foi a epígrafe escolhida pela jornalista Carla Rodrigues para abrir seu mais novo livro, “Coreografias do feminino”, um desdobramento de sua dissertação de mestrado defendida em março de 2008 no Programa de Pós-graduação em Filosofia da PUC-Rio. Ao desafio inicial da autora nos dois anos de mestrado – pensar sobre o feminino e o feminismo no âmbito da filosofia a partir da obra de Jacques Derrida – somou-se a intenção de analisar a possível contribuição do pensamento da desconstrução do filósofo francês à teoria feminista e a crítica que este faz ao chamado falo-logo-centrismo.

No livro, Carla Rodrigues busca demonstrar de que maneira a política feminista ainda pode contribuir para o questionamento de estruturas hierárquicas e para o fim da suposição de superioridade do masculino em relação ao feminino. “O feminino aparece, na filosofia de Derrida, como o elemento que mina e desconstrói as afirmações do masculino, tanto de verdade como de fundamento. Ele vai pensar várias questões políticas contemporâneas a partir da idéia desse feminino como uma ausência de fundamentos e ausência de uma verdade absoluta”, afirma Carla.

Para tanto, a autora articula as proposições de Derrida com teóricas feministas como Drucilla Cornell, Joan Scott, Elizabeth Grosz, Diane Elam e Judith Butler, que, assim como o filósofo, defendem a possibilidade de o movimento feminista fazer política sem necessariamente afirmar a identidade de um sujeito estável, único – as mulheres. Como se fazer a ação política a partir daí, colocar a teoria na prática, é uma outra história, segundo a autora. “Derrida é defensor da idéia de que o pensamento deve ser resguardado, independentemente do que virá de aplicação prática depois. Somente pensando é que se pode vir a modificar as coisas. Minha intenção é pensar a teoria feminista”, diz a jornalista, que atualmente se debruça sobre sua tese de doutorado, onde, ao invés de dialogar especificamente com as teorias feministas, pretende ampliar a filosofia de Derrida para questões políticas contemporâneas.

Para ela, a ação política em nome de interesses específicos da mulher – como se estes fossem um bloco monolítico – está fadada ao fracasso. “Já foi preciso fazer isso, agora é preciso reinventar”, assinala, nesta entrevista. “Coreografias do feminino” será lançado em agosto, pela Editora Mulheres, mas já pode ser adquirido através do site www.editoramulheres.com.br

A que se referem as “coreografias” do título de seu livro?

Faço referência a uma entrevista que Derrida deu à feminista norte-americana Christie MacDonald, em 1979, e que recebeu o nome de “Coreografias”. A entrevista teve este título porque a entrevistadora começa o diálogo com uma provocação ao citar uma feminista anarquista do século XIX chamada Emma Goldman, que dizia “de nada me serve a sua revolução se eu não puder dançar”. Na entrevista, Christie discute um texto de Derrida de 1979 chamado Éperons, no original em francês (Esporas, em português) – um diálogo de Derrida com a obra de Nietzsche, primeiro grande filósofo a questionar a idéia de uma verdade absoluta. No texto, Derrida questiona a idéia do movimento feminista de colocar o homem como inferior e a mulher como superior como forma de desfazer a dominação masculina. Tirar este papel do homem para dá-lo à mulher seria, para o filósofo, uma inversão. O que Derrida sugere no texto é uma outra forma de desfazer a oposição homem/mulher e masculino/feminino, porque, para ele, simplesmente colocar as mulheres em posição de superioridade é manter a hierarquia. Então, o que ele diz é que as mulheres continuariam presas na mesma estrutura que as oprime, não haveria mudança. O que Emma Goldman quer dizer com “de nada me serve a sua revolução se eu não puder dançar” é, na verdade, “para não poder dançar, me libertar, então não adianta eu ser feminista”

. Toda a obra de Derrida é um questionamento aos pares opositivos. E os movimentos, de uma maneira geral, emergem justamente defendendo o direito à diferença em relação ao padrão masculino.

A demanda seria pelo direito à diferença ou pelo direito à igualdade?

É primeiramente uma demanda pelo direito à diferença, no sentido de ser diferente do padrão, e é também uma demanda pelo direito à igualdade, no sentido de que, se essa diferença é reconhecida, então é preciso conceder os mesmos direitos. O que muitas das teóricas dizem é que este é um paradoxo: movimentos que surgem defendendo um direito à diferença passem a exigir que as pessoas, dentro deles mesmos, sejam todas iguais, que tenham as mesmas demandas, as mesmas características e as mesmas identidades. É um paradoxo que começou a ser questionado já no final da década de 1980. Em 1993, Judith Butler publicou o livro “Problemas de gênero”, publicação importante nesta linha de raciocínio. A partir do pensamento de Derrida, ela questiona a idéia de que se precise afirmar uma identidade para se fazer política em nome daquela identidade afirmada. Butler reconhece que isso é difícil de mudar e que toda a política norte-americana está baseada em um lobby de representação, mas questiona até que ponto não se pode pensar em fazer um novo tipo de política sem que seja necessário haver um sujeito estável para fazê-la. Porque a idéia do sujeito estável é uma idéia proveniente de um tipo de estrutura que se quer combater. Segundo Judith Butler, “um modo da dominação funcionar é mediante a regulação e produção de sujeitos”.

Mas uma política representacional fundamentada em uma única identidade não tem sido o caminho que o movimento feminista tem tomado, assim como os outros movimentos identitários – o negro e o lgbt?

Derrida, Butler e a Drucilla Cornell vão dizer que a afirmação de uma identidade pode ser uma etapa necessária, mas não é o suficiente. Nenhum deles está desqualificando os movimentos, até mesmo porque é preciso fazer uma distinção entre os movimentos e as teorias feministas. É razoável pensar que na prática, na militância, enfim, na ação política, isto seja por enquanto a única coisa a se fazer mesmo, o que não quer dizer que as teorias não possam ousar a pensar além disso. Minha preocupação, no livro, é ousar pensar diferente. A partir daí, pode-se começar a pensar que há a possibilidade de se fazer política de uma maneira diferente.

Muitas feministas, como a francesa Françoise Collin, mostram uma certa resistência ao pensamento da desconstrução proposto por Derrida. A possibilidade de aliança com esta teoria ainda assusta um pouco as feministas?

Não há consenso em torno disso. Nos Estados Unidos, o pensamento da desconstrução de Derrida vai ter uma grande acolhida pelas feministas pós-estruturalistas, que o vão chamar de pós-estruturalismo. Bom lembrar que a formulação de Derrida não propõe a liquidação do sujeito “mulheres”, simplesmente porque ele nunca existiu, dado e estável. Sobre isso, há uma frase sensacional de Butler: “Há o refrão que, justamente agora, quando as mulheres começam a assumir o lugar de sujeitos, as posições pós-modernas chegam para anunciar que o sujeito está morto“. Ou seja, as mulheres se tornaram sujeito, mas o sujeito não existe.

Porém, ao mesmo tempo em que Derrida fala que o sujeito não existe, que é uma fábula, ele fala da existência de um “homem-branco-europeu-dotado-de-razão—sujeito-de-direitos”...

Ele se refere ao sujeito racional do Iluminismo, do “penso, logo existo”. Derrida diz que a identidade é um processo, e substitui a idéia de identidade pela idéia de identificação, por isso critica as fixações de identidades para se fazer política. O que há, na verdade, é um processo permanente de identificação. Por sua vez, Judith Butler diz algo parecido. Segundo ela, o que existe são unidades contingentes e provisórias. Isto não quer dizer que o sujeito não exista. Ele não existe como uma coisa única, pronta e acabada. Está sempre em processo, parcial e temporário. As definições não podem ser novos mecanismos de opressão. Elas têm que ser flexíveis.

E não inflexíveis como o tal homem branco-europeu...

Exatamente. Drucila Cornell, filósofa e advogada feminista, vai justamente dizer que não adianta se pensar em igualdade de direitos, porque esta igualdade sustenta o padrão masculino como o ideal a ser alcançado, como uma referência. Se pensarmos em igualdade estaremos sempre em uma posição inferior em busca de chegar ao mesmo ponto. Por isso, ao invés de pensar em igualdade, Cornell vai pensar em equivalência, em quais são os direitos equivalentes. Ela vai reconhecer características específicas das mulheres ou dos homossexuais. No caso feminino, Drucila Cornell exemplifica a maternidade como uma dessas características. A questão é o que fazer para valorizar o específico sem cair em um essencialismo. O problema é que muitos dos discursos de defesa das especificidades da mulher acabam caindo em um discurso essencialista que diz coisas como “a mulher é essencialmente frágil”. Mas, como diz Cornell, há especificidades e é preciso reconhecê-las não com base nos critérios naturalizantes de sempre, mas para se poder formular uma equivalência.

Na prática, como é possível propor esta equivalência de direitos no lugar da defesa da igualdade? A própria ação política feminista historicamente não vai contra isso, ao basear sua luta na igualdade entre os sexos, por exemplo?

A ação política feminista já tem buscado de muitas maneiras em não falar em nome da mulher. Na década de 80 começou-se a falar nas mulheres brancas, nas mulheres negras, nas mulheres índias, nas mulheres orientais, nas mulheres ocidentais, tentando justamente se abrir a demandas específicas. Uma mulher branca da zona sul da cidade do Rio de Janeiro não pode ser unificada em uma categoria que inclua uma mulher islâmica, ou uma mulher negra da África, ou uma imigrante africana que viva na França. A militância já está tentando dar conta desse desafio há algum tempo.

Como aplicar esta idéia de equivalência no mercado de trabalho, por exemplo, no lugar da idéia de igualdade?

Há países, como os países nórdicos e o Japão, em que o casal pode escolher quem vai ficar em casa quando nasce um filho. A Itália já está discutindo isto também. Esta idéia é diferente de uma lei que obrigue a mulher a ficar em casa. A licença é dada ao cônjuge que decidir ficar em casa tomando conta do filho. Alguém precisa fazer as tarefas domésticas, e esta pessoa não precisa ser a mulher necessariamente. A possibilidade de que um homem – e não uma mulher – fique em casa durante um ano cuidando de uma criança é muito importante para todo mundo, não somente para as mulheres. Os homens, que sempre estiveram presos a determinados padrões, nunca se beneficiaram tanto, diante de tantas possibilidades que se abrem. A desconstrução da idéia de que é preciso se encaixar em padrões pode ser bom também para eles.

Em uma determinada altura do livro, há um questionamento seu: “como pensar a política feminista neste cenário de identidades que tremem?” Qual a resposta para isso?

As teóricas feministas pós-estruturalistas não querem acabar com a política feminista, que já se encontra debaixo de muitas críticas. Quando eu coloco esta pergunta é porque a política em nome de interesses específicos da mulher – como se estes fossem um bloco monolítico – está fadada ao fracasso. Já foi preciso fazer isso, agora é preciso reinventar. As unidades são contingentes e provisórias. Então a questão é aceitar o provisório dentro da política, o que é muito difícil, uma vez que a política tenta ir em busca de soluções definitivas. Trata-se de aceitar uma certa fragilidade. Como diz Judith Butler, aceitar divergências, fragmentações e rupturas, ao invés de apostar numa unidade totalizante, também é parte de um processo democrático.

Publicada em: 22/07/2009

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