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Alcohol y género

Predominantemente associado aos homens, o consumo de álcool tem sido cada vez mais associado às mulheres. Nas últimas décadas, a proporção de mulheres na população brasileira alcoólatra triplicou, passando de 10% para 30%, conforme dados recentes da Secretaria Nacional de Antidrogas e da Universidade Federal de São Paulo.

A mudança no perfil do consumidor de álcool é notada também na população jovem. A distância entre os gêneros tem encolhido: entre a população menor de 18 anos, elas representam 31% dos que bebem com frequência (mínimo de cinco doses semanais) contra 34% dos homens. De acordo com o Ministério da Saúde, entre 2006 e 2010, o consumo excessivo de álcool entre mulheres passou de 8,2% para 10,6%.

O panorama descrito pelas pesquisas envolve aspectos que escapam das questões eminentemente médicas. A relação do álcool com a mulher deve ser entendida também como uma relação generificada em que instituições de tratamento, laços familiares, concepções morais, modelo de propaganda e marketing e classe social estão articulados no cotidiano do alcoólatra. “Há uma dimensão moral que engloba e organiza a experiência em relação à doença”, observa a psicóloga e doutora em Saúde Coletiva Fernanda de CarvalhoVecchi Alzuguir, cuja trajetória acadêmica e científica está ligada ao estudo das relações de gênero e o alcoolismo.

Em entrevista ao CLAM, Fernanda Vecchi Alzuguir opina sobre o dispositivo terapêutico acionado para tratar o alcoolismo feminino e analisa de que forma expectativas de gênero surgem nos discursos das mulheres em tratamento.

O que a motivou a estudar a temática do alcoolismo articulada a questões de gênero?

O interesse pelo estudo do alcoolismo e gênero surgiu da minha atuação pregressa em um serviço de saúde destinado ao atendimento de homens e mulheres “alcoólatras”[1]. Participando de um grupo formado por mulheres em tratamento nesse serviço, percebi que muitas delas tentavam relacionar maternidade e alcoolismo. A pergunta “gravidez e alcoolismo combinam?” era recorrente nos espaços de atendimento. Verifiquei também um padrão discursivo caracterizado por justificativas para a impossibilidade de atenderem expectativas sociais em relação à maternidade. Tais justificativas normalmente se apoiavam na idéia de que o alcoolismo era uma doença que escapava ao controle pessoal, o que “desculpava” o não atendimento daquelas expectativas. Tais questões apontaram para a dimensão de gênero como um importante ordenador da forma como as mulheres da pesquisa construíam sua relação com a bebida e os discursos sobre o alcoolismo. Outro aspecto que me motivou foi a escassa produção na área das ciências sociais sobre alcoolismo e gênero.

Seu estudo chama a atenção para a existência de uma “carreira moral do alcoolismo”. O que isto significa?

A carreira moral é um conceito elaborado pelo sociólogo Erving Goffman, segundo o qual pessoas com um estigma particular tendem a passar por experiências semelhantes de aprendizagem e mudanças na construção da identidade. Ele chama a atenção para o fato de que a internação em uma instituição total [2] é um acontecimento significativo na vida de uma pessoa e que produz efeitos na construção de esquemas de imagem para julgar a si mesmo e ao outro.

Neste sentido, a carreira moral do alcoolismo foi empregada para designar o impacto do percurso do tratamento em serviços que se destinam ao enfrentamento do alcoolismo no sentido da reformulação da trajetória pessoal, da consolidação de uma identidade alcoólatra e da noção de que o alcoolismo é uma doença.

À época da pesquisa, as mulheres relatavam geralmente um contato anterior ou concomitante com outros serviços que lidam com o alcoolismo, como é o caso dos grupos de ajuda-mútua Alcoólicos Anônimos (AA). É neste percurso pelas instituições voltadas para o enfrentamento da questão que as mulheres constroem uma memória condizente com uma nova imagem de si, descartando os eventos singulares e enaltecendo aqueles relacionados ao sistema cultural específico que se constitui em torno da identidade alcoólatra e do alcoolismo. A influência do percurso institucional se evidenciou nas diferenças marcantes das percepções sobre o alcoolismo entre entrevistadas recém-ingressas no serviço de saúde onde realizei a pesquisa e aquelas com inserção de longa data. No primeiro caso, elas hesitavam em se definirem como alcoólatras e falavam de “estar se conscientizando” de que o alcoolismo é uma doença. Já no caso das mulheres com inserção de longa data, a identidade alcoólatra aparecia de forma mais sedimentada.

Seu trabalho mostra que duas concepções sobre alcoolismo coexistem: uma biomédica e outra moral. O que elas significam e como tais concepções se relacionam?

A concepção biomédica do alcoolismo se refere à compreensão do alcoolismo como uma doença caracterizada pela perda do controle da vontade de beber. Sua constituição é afetada pela racionalidade médica vigente nas instituições de enfrentamento do alcoolismo, embora não se resuma a ela. Já a concepção moral do alcoolismo designa a dimensão sócio-cultural, o sistema de valores e crenças a partir do qual o alcoolismo se constitui. A enunciação de uma moral da vergonha e da responsabilidade era recorrente nos discursos das mulheres. Elas eram vias privilegiadas de acesso à dimensão moral do alcoolismo.

As duas concepções estão interligadas, de maneira que sua separação é apenas esquemática. Embora interligadas, aparecem com peso e organização diferenciados nos discursos. A dimensão moral do alcoolismo é o que de fato engloba e ordena as percepções das mulheres sobre sua experiência alcoólica. No entanto, ela é encoberta e aparentemente neutralizada devido ao processo de medicalização pelo qual as entrevistadas passam ao longo de sua carreira moral pelas instituições de enfrentamento do alcoolismo. A análise das narrativas das mulheres e dos homens (na pesquisa de doutorado incluí na análise os homens em tratamento) elucidou que o alcoolismo se estrutura em um contexto cultural marcado por gênero, sexualidade, classe social e outros marcadores da diferença.

Como avalia o papel desempenhado pelos médicos no acompanhamento dessas mulheres?

Tanto a pesquisa com mulheres quanto, mais recentemente, o estudo com homens e mulheres em tratamento para o alcoolismo, atestam que o dispositivo terapêutico se inscreve em um campo profundamente marcado por aspectos morais. Como disse anteriormente, essa dimensão moral acaba sendo bastante encoberta em função do processo de medicalização. No entanto, a análise atenta das narrativas permite desvendar a moralidade que cerca a concepção biomédica do alcoolismo por eles incorporada em sua carreira de tratamento.

Por um lado, as intervenções médicas “desculpabilizam” homens e mulheres pelo uso de bebida, o que contribui para o ingresso e a permanência no tratamento. Pode-se dizer que tal “desculpabilização” é um importante elemento para a aceitação do tratamento. Mas, ao mesmo tempo, embora de maneira mais implícita, os momentos de reinternação, símbolo da chamada “recaída”, são percebidos pelos entrevistados como uma espécie de fracasso moral, ocasionando um sentimento de vergonha por não terem conseguido levar adiante as prescrições do tratamento. Assim, a culpabilização/desculpabilização se relaciona intimamente com a avaliação das responsabilidades. No que se refere ao aspecto da determinação da doença, o estatuto de doente alcoólico desresponsabiliza o/a alcoólatra por sua vontade de beber já que o alcoolismo é concebido em termos de uma predisposição natural que independe da vontade e controle pessoal. No entanto, a conscientização da condição doente, adquirida ao longo do tratamento, também acirra o grau de responsabilidade no sentido de evitar o contato com a bebida. Esta responsabilidade é sinalizada pelos médicos nos atendimentos e pelos próprios entrevistados quando eles deixam de cumprir as prescrições do tratamento, como comparecer às consultas, usar as medicações e evitar o uso de bebida.

Os discursos de homens e mulheres evidenciam como diferentes expectativas de gênero afetam os sentidos atribuídos à sensação de decadência moral decorrente do uso de bebida. Enquanto para alguns homens entrevistados esse fracasso se vinculava na pesquisa ao não cumprimento do papel do pai e marido provedor, para as mulheres ele decorre do distanciamento das expectativas de cuidado em relação aos filhos.

Acredita que a crescente atenção médica sobre o alcoolismo nas mulheres reflete uma noção de feminilidade associada a uma suposta fragilidade do corpo da mulher (similar às concepções de gênero da medicina no século XIX)?

Sim. No discurso médico, os corpos das mulheres alcoólatras são descritos como naturalmente distintos e mais vulneráveis aos efeitos deletérios do álcool, os quais são caracterizados como mais devastadores nas mulheres do que nos homens. O alcoolismo feminino adquire, assim, contornos específicos que o diferencia do alcoolismo masculino. Esse discurso reatualiza concepções de gênero da medicina do século XIX que consolidavam a imagem de um corpo feminino instável e vulnerável, o que demandava um monitoramento contínuo e a construção de um saber específico sobre este corpo. O problema desse tipo de narrativa que tem se intensificado na mídia nos últimos anos é que a maioria parte de um determinismo biológico que reduz e simplifica o alcoolismo, feminino ou masculino, como uma questão estritamente biológica, ignorando o papel de marcadores sociais, como o gênero, na sua constituição. Assim, por exemplo, o impacto do gênero na produção de diferenças na relação que homens e mulheres estabelecem com a bebida, nos estilos de consumo e circulação nos espaços públicos e privados, é explicado como uma diferença de natureza biológica.

A naturalização da diferença de gênero pode acarretar a estigmatização de mulheres cujo modo de beber não se adequa às construções em torno de um beber dito “feminino”. Mulheres que bebem nos espaços públicos e de maneira solitária, por exemplo. As marcações de gênero são tão presentes e determinantes que mesmo as entrevistadas que transgrediam em vários níveis a equação feminino = privado, que bebiam intensamente na rua, inscreviam este consumo como um “beber masculino”.

Nas relações domésticas, é notória a existência de uma divisão do trabalho: as mulheres são, culturalmente, vistas como as responsáveis pela manutenção e limpeza da casa, bem como pelo cuidado com os filhos. No seu trabalho, quais implicações o alcoolismo tem domesticamente?

Um aspecto bem marcante nos depoimentos das mulheres da pesquisa foi a tentativa de conciliarem o consumo de bebida com o cuidado dos filhos. Uma tensão entre o projeto de maternidade e o consumo de bebida ficou bem evidente em alguns depoimentos. Há uma exacerbação nos relatos de uma ética da responsabilidade quanto ao cuidado dos filhos. Neste sentido, as mulheres, sendo mães ou não, salientaram que a responsabilidade pela maternidade se mantinha a despeito do uso de bebida. A necessidade de assinalar esta manutenção elucida a articulação problemática e socialmente condenável entre beber e maternar. As mulheres sem filhos relataram que a maternidade demandaria uma responsabilidade que elas não poderiam cumprir. Para estas mulheres, a decisão de não ter filhos era avaliada como um ato de responsabilidade. Já as entrevistadas que eram mães consideravam um ato de responsabilidade a transferência do cuidado dos filhos a uma pessoa próxima, normalmente parentes, antes de irem beber. Apesar da tentativa de sustentarem uma ética da responsabilidade, algumas mulheres informaram, com certa dificuldade, que mesmo este cuidado já foi em algum momento abalado com o uso da bebida.

A distinção entre público e privado é um forte marcador que impacta a experiência das mulheres com a bebida. A maioria das entrevistadas relatou que o consumo alcoólico ocorria mais freqüentemente fora de casa, especialmente nos bares. No entanto, o beber nos bares não implicava necessariamente na transgressão ou inobservância das regras de gênero, já que as mulheres que bebiam nestes locais se preocupavam em sinalizar que este consumo ocorria quando estavam acompanhadas ou então que sempre levavam dinheiro para pagar. As narrativas de que o consumo ocorria sob determinadas condições apontaram para a sustentação de uma moral sexual feminina no contexto dos bares. De um modo geral, as informantes aludiam a um tratamento diferencial pelos homens que costumam pagar bebida por interesse sexual. Alguns relatos mostram o estigma em torno das mulheres que bebem desacompanhadas e sem dinheiro para pagar, a partir de uma avaliação moral que vincula tais condições à prostituição feminina.

Outro aspecto importante que remete à dimensão privada da experiência com a bebida, e que está relacionada ao aspecto da socialização alcoólica feminina, é o relato de que o contato inicial com a bebida ocorreu por intermédio de familiares, especialmente do pai, que costumava apresentar a bebida em eventos festivos no âmbito familiar. Uma das entrevistadas, inclusive, relatou que a mãe desaprovava seu consumo alcoólico somente quando este ocorria fora de casa. Este exemplo é ilustrativo de que a condenação do uso de álcool se constrói em um campo moral marcado por expectativas sociais de gênero.

Que influência a classe social exerce sobre os discursos das mulheres pesquisadas em seu trabalho?

Na pesquisa, tanto com as mulheres quanto com os homens em tratamento, a classe social é uma categoria que estabelece diferenças nas narrativas dos entrevistados. No entanto, essas diferenças são atenuadas por conta do percurso de tratamento e da conseqüente produção de um novo pertencimento social que se consolida em torno da condição de doente-alcoólatra. Essa carreira moral favorece uma aparente homogeneização das diferenças entre os entrevistados. Digo aparente, já que essas diferenças não são apagadas mas sim encobertas pelo processo de medicalização pois é a dimensão moral que engloba e organiza a experiência em relação à doença.

No caso de algumas mulheres provenientes de camadas médias urbanas, o tipo de bebida se apresentava como um signo de distinção social no contexto onde bebiam. Assim, o uso de bebidas como whisky e vinho era narrado como símbolo de distinção social em relação a bebidas mais populares e de custo mais baixo como a cerveja e a cachaça.

Outro aspecto importante observado foi o peso diferenciado de enunciação da dimensão moral do alcoolismo de acordo com a classe social. Homens e mulheres provenientes das camadas populares tendiam a enfatizar aspectos morais como o sentimento de vergonha em relação ao passado de uso de bebida. Já os membros das camadas médias salientavam a dimensão médico-psicológica do alcoolismo e do tratamento, as dificuldades emocionais e o recurso da terapia ou da reflexão pessoal como estratégias de enfrentamento daquelas dificuldades. A explicação psicológica em relação ao sofrimento pessoal nesses casos se sobrepunha à explicação moral a respeito do alcoolismo. Ela evidencia a influência do plano psicológico na própria construção da Pessoa, influência que se mostra mais marcante para os membros das camadas médias.

De um modo geral, bastante presente nos discursos são as estratégias de distanciamento de situações que aludem à decadência moral e social associadas à experiência com a bebida, como é o caso da representação em torno do “cair no chão” devido ao consumo intenso de bebida. A própria expressão “recaída”, comumente empregada para designar aqueles que voltaram a beber, remete à imagem de descenso social e moral. Assim, o beber “sem cair”, a manutenção de certa postura corporal em momentos de embriaguez é também uma noção valorizada entre os entrevistados.

Pesquisa recente do Ministério da Saúde mostrou que, entre 2006 e 2010, o número de mulheres que consomem bebidas alcoólicas em excesso aumentou de 8,2% para 10,6%. A que podemos atribuir esse aumento?

Podemos levantar vários aspectos e questionar se este aumento reflete simplesmente um aumento do consumo por parte de mulheres. Considero que a questão da construção de uma maior visibilidade social em relação a este consumo deve ser contemplada nas análises sobre este fenômeno. Pois é plausível considerar que por conta do próprio estigma que envolve as mulheres que bebem, muitas acabam bebendo mais dentro de casa, de forma mais velada, e acessam menos os serviços de saúde. E mesmo quando chegam aos serviços ainda é possível supor maior dificuldade de as queixas resultarem em um diagnóstico de alcoolismo para as mulheres por parte dos próprios profissionais, já que a literatura médica sobre o assunto e os serviços ainda estão muito voltados para a representação do alcoolismo como uma questão masculina. Só mais recentemente tem sido possível observar uma transformação nos discursos midiáticos e científicos no sentido de reconhecer e dar visibilidade à relação mulheres e alcoolismo, o que podemos relacionar, entre outros fatores, às mudanças em relação ao papel das mulheres na sociedade e da crescente inserção das mulheres nos espaços públicos.

Apesar das mudanças nas relações de gênero no contexto contemporâneo, o gênero ainda é fortemente marcado por uma separação binária que estabelece e naturaliza diferenças entre homens e mulheres alcoólatras. Por exemplo, algumas entrevistadas atribuíram um caráter de contestação às normas de gênero na relação “menos privada” que estabeleciam com a bebida, caso de algumas mulheres que bebiam intensamente nos bares. Entretanto, os sentidos fornecidos para este consumo se ancoram a um referencial “masculino”, quando dizem, por exemplo, que bebem de uma maneira “masculina”, atestando a ausência de um espaço de significação para o beber feminino no contexto público.

O consumo de álcool parece ser um indicador de status e de socialização. No entanto, apesar de aceita e muitas vezes celebrada culturalmente, a bebida também implica em estigmas sociais. Como interpretar essa contradição entre incitação e penalização?

Este cenário aparentemente contraditório de incitação e penalização do consumo de bebida remete às proscrições e prescrições sociais construídas em torno daquele consumo. A análise dos contextos de aprovação e desaprovação do consumo de bebida para homens e mulheres elucida as regras que definem a normalidade e o desvio em uma sociedade ou grupo específico.

Nesta análise, não podemos desconsiderar também que o consumo de bebida exerce um impacto nada desprezível sob a economia mundial em razão dos lucros da indústria de bebida.

Os padrões de excesso e normalidade quanto ao uso de bebida estão orientados por alguns eixos morais que foram construídos no contexto do individualismo moderno, dos quais destaco a ênfase no autocontrole que se traduz na responsabilização individual pelo controle do consumo. Não é a toa que a doença do alcoolismo se constituiu neste mesmo cenário como uma perturbação marcada pela falta de controle em relação ao beber. Tal ênfase no indivíduo acaba por minimizar ou mesmo encobrir o papel do contexto sócio-cultural mais amplo na incitação e penalização do consumo alcoólico.

Alguns trabalhos do campo das ciências sociais mostram que o consumo recreativo de bebida também não escapa às regras sociais. Por exemplo, a antropóloga Delma Pessanha Neves, uma das estudiosas do campo, chama a atenção para os códigos sociais no contexto dos bares, que são espaços de consagração do “bom bebedor” em detrimento do “bêbado”. O “bom bebedor” seria aquele que não coloca em xeque as reciprocidades sociais enquanto que o “bêbado” solitário costuma ser rechaçado e visto com suspeição pelos freqüentadores e pelo próprio dono do bar.

As ações de publicidade de cervejas, no Brasil, são marcadas pelo uso estereotipado  do corpo feminino: valoriza-se o corpo da mulher em um cenário que elas assumem um papel de objeto dos homens. Qual a sua opinião sobre esse modelo de propaganda?

Este modelo de propaganda não só reflete como reforça estereótipos de gênero presentes na nossa sociedade. A associação da bebida ao feminino é bem explicitada na linguagem cotidiana, a começar pelos nomes das bebidas: “branquinha”, “loira”, “gelada”, “boa”, entre outras denominações e referências. A bebida encarna uma imagem do feminino marcada pela sensualidade e um forte apelo ao aspecto da sedução. Os homens entrevistados em uma pesquisa mais recente, também em contexto de tratamento para o alcoolismo, evidenciaram esta aproximação. A bebida aparecia em seus relatos de maneira personificada e narrada no feminino como se fosse uma parceira amorosa. As propagandas parecem captar muito bem e fortalecer essas representações masculinas em relação à bebida e sua associação com o feminino.

De acordo com o modelo de tratamento do alcoolismo estudado por você, em que aspectos ele pode ser melhorado?

Os modelos de tratamento para o alcoolismo se amparam na racionalidade médica que restringe o alcoolismo a um problema médico. Essa leitura reduz o fenômeno a uma relação de causa e efeito baseada em um corpo biológico e se traduz em estratégias de intervenção ainda altamente medicalizadas. Toda a dimensão sócio-cultural mais ampla de constituição dos processos de saúde e doença e seu papel na construção do alcoolismo, a influência, por exemplo, de marcadores como gênero e classe social, da cultura de tratamento à própria construção do alcoolismo, não são contemplados pelo modelo biomédico. Por essa razão considero de extrema importância sensibilizar os profissionais para o contexto sócio-cultural em que o alcoolismo se produz e o papel de categorias como gênero, sexualidade, classe social, tempo de internação, por exemplo, na organização da experiência da pessoa com o álcool e que deveriam ser contempladas na organização das estratégias de cuidado.

[1] Com o termo “alcoólatras” chamo a atenção para a influência do percurso de tratamento pelas instituições que visam o enfrentamento do alcoolismo no sentido da construção da identidade “alcoólatra” e da noção de alcoolismo como uma doença.

[1] Para Goffman, o aspecto central da instituição total é a ruptura de barreiras que separam o dormir, o brincar e o trabalhar, de modo que todos os aspectos da vida são realizados sob um plano racional único.

Publicada em: 25/01/2012

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