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CLAM lançará livros na ABRASCO

Duas importantes obras que abordam a temática do gênero sob enfoques distintos – as mulheres e os/as transexuais – serão lançadas a partir da próxima semana: A mulher no corpo: uma análise cultural da reprodução, primeiro livro da antropóloga norte-americana Emily Martin (Universidade de Nova York) a ser traduzido para o português, e A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual, da socióloga Berenice Bento (Universidade de Brasília). Ambas serão lançadas pelo CLAM, em co-edição com a Editora Garamond, em três eventos e cidades diferentes: no dia 24 de agosto, durante o Congresso da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), no Rio de Janeiro; no dia 28 de agosto, durante o 7º Seminário Internacional Fazendo Gênero, em Florianópolis (SC); e no coquetel de abertura do Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), no dia 24 de outubro, em Caxambu (MG).

Para a antropóloga Jane Russo, coordenadora de publicações do CLAM, os livros de Emily Martin e Berenice Bento, escritos em épocas diversas e com propósitos distintos, têm importantes pontos de contato. “Nos dois casos as autoras estão discutindo de forma crítica as verdades construídas pela biomedicina acerca dos corpos e dos gêneros, colocando em xeque, cada uma a seu modo, a tradicional oposição entre masculino e feminino. Tanto as mulheres de Emily Martin quanto os/as transexuais de Berenice Bento devem reinventar seu próprio corpo, de forma indisciplinada e corajosa, enfrentando uma certa concepção de natureza que, sob o manto de neutralidade científica, tem como finalidade principal produzir verdades inquestionáveis e certezas absolutas. Isto é, produzir o impossível”, observa.

A mulher no corpo

A antropóloga Emily Martin, autora de A mulher no corpo: uma análise cultural da reprodução, relata que uma das motivações que a levou a escrever o livro era a perspectiva de sensibilizar não só a comunidade científica, mas também o público em geral, a respeito do que seja uma análise feminista da ciência. “Esperava influenciar a auto-percepção das mulheres a respeito de menstruação, menopausa, gravidez e parto”, diz ela.

O livro foi publicado em 1987 nos EUA e esta é a sua primeira tradução para o português. A autora buscou estudar os processos culturais que afetam as mulheres e que podem ser observados nas concepções que elas próprias têm de seus corpos. Martin entrevistou 165 mulheres de diferentes etnias, idades e classes sociais de Baltimore, as quais viviam em distintos contextos.

A obra tem inspiração feminista na interpretação de alguns fenômenos, como a tensão pré-menstrual (TPM). Segundo Martin, os sintomas que as mulheres descrevem neste período podem ser entendidos como indicativos de um processo de descontentamento e de liberação. A autora acredita que estas descrições podem ser pensadas como instantes de manifestação da revolta das mulheres quanto à sua condição de subordinação na sociedade. Ela vai mais longe ao afirmar que essa experiência comum das mulheres pode de fato se converter em uma base positiva para que se identifiquem como um grupo oprimido e busquem estratégias de superação. Segundo Martin, o problema é que as mulheres atribuem essa raiva muito mais a causas biológicas do que a sua real condição de opressão.

Martin faz uma análise crítica das metáforas empregadas pela biologia para descrever rotinas do sistema reprodutivo masculino e feminino. A partir do século 19, com o advento das fábricas, os corpos das mulheres passam a ser pensados, nos textos médicos, principalmente como fábricas para a produção de crianças. Segundo a autora, o bom andamento do sistema cérebro-hormônio-ovário teria como resultado a produção de novos seres humanos. E qualquer evento que fugisse a este objetivo implicaria uma desvalorização. É o caso da menstruação e da menopausa. Para a autora, tal como é descrita nos textos médicos e em livros populares, a menstruação aparece como uma falha na produção. Todo o sistema estava preparado para gerar um novo produto e se isto não aconteceu é devido a algum tipo de falha.

Já a menopausa é definida como o momento do término da produção, quando as máquinas já estão cansadas e começam a ter defeitos até que finalmente cessam de funcionar. Com referência à concepção hierárquica, pode-se acrescentar o fato de que as falhas acontecem porque algum elemento deixou de obedecer aos sinais de comunicação enviados pelo órgão superior. No caso da menopausa, os ovários é que deixariam de responder, quebrando a hierarquia da produção.

A autora também enfoca incidentes específicos descritos pelas mulheres entrevistadas, durante os quais elas discordaram fortemente das práticas ou dos procedimentos médicos, casos de mulheres que arrancaram o bisturi da mão do obstetra, por exemplo. Ela realça a noção de poder dos médicos exercida sobre os corpos femininos. “Num universo em que os médicos abrem as mulheres com uma faca e puxam seus bebês para fora ou, após a menopausa, chamam partes de seu corpo de inutilidades murchas, adquiri uma boa compreensão sobre formas de poder cruas e brutais”, afirma Martin na introdução do livro. “O resultado desse tipo de trabalho de campo, contudo, pode nos levar a reavaliar a possibilidade de que as mulheres, ou quaisquer outros grupos, possam resistir aos modelos médicos como estruturas de poder e, então, mudá-los”.

Ao escrever A mulher no corpo, a intenção da autora, segundo ela própria, era abrir um espaço onde os leitores pudessem ver a variedade de maneiras pelas quais as mulheres podem tomar o controle de suas vidas reprodutivas, afirmar seus desejos e, ao menos às vezes, produzir resultados eficazes. “As mulheres têm, de fato, algumas experiências em comum: todas são definidas como ‘mulheres’, uma das duas categorias de gênero praticamente fixas nas quais todos devem ser classificados em nossa sociedade; todas (algumas mais do que outras, algumas mais conscientemente do que outras) ocupam uma posição subordinada em relação aos homens, senão em seus trabalhos, então em suas famílias; senão em suas famílias, então no imaginário da cultura geral e na linguagem; todas têm corpos femininos e experimentam os mesmos processos corporais, como menstruação e parto; todas são afetadas de uma forma ou de outra pelos conceitos médicos e científicos do processo corporal feminino”, finaliza.

A reinvenção do corpo

Versão de sua tese de doutorado, defendida no Programa de Pós-Graduação de Sociologia da Universidade de Brasília/UnB, A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual, da socióloga Berenice Bento, enfoca a transexualidade como objeto de uma reflexão propositadamente provocativa: Qual é a capacidade do sujeito de subverter normas de gênero?

A autora não discute gênero a partir da referência biológica, mas das performances que os sujeitos – como os que se submetem a cirurgias de mudança de sexo – atualizam em suas práticas cotidianas para serem reconhecidos como membros legítimos do gênero com o qual se identificam. Para tanto, Berenice faz uma revisão histórica contextualizando a problemática transexual, desde o seu surgimento na metade do século passado, como uma patologia, até a atualidade, na qual com a entrada das Ciências Sociais e da voz dos próprios sujeitos envolvidos nas discussões, se pretende desconstruir o “transexualismo” como doença.

A primeira vez que a palavra "transexual" apareceu na literatura médica foi em 1949, sob o signo de uma doença mental e, até hoje, a transexualidade figura como transtorno mental na classificação de doenças da Organização Mundial de Saúde (CID-10) e na Psiquiatria (DSM). É exatamente aí que reside o objetivo central da obra: problematizar a legitimidade do saber/poder biomédico na patologização de uma experiência que excede em muito esse saber. O livro analisa a experiência transexual fora dos marcos patologizantes e normatizadores do campo biomédico. A autora tenta encontrar nas relações sociais os mecanismos mediante os quais a sociedade constrói os corpos-homem e os corpos-mulher.

“Quando uma pessoa afirma ‘quero reconstruir meu corpo, quero uma cirurgia de transgenitalização’, está afirmando implicitamente que a primeira ‘cirurgia’ – a do nascimento, que definiu o gênero a partir da genitália – não foi exitosa. Dessa forma, quando localizo nas instituições sociais e nas relações sociais delas decorrentes a explicação para a gênese da experiência transexual, inverto a lógica: são as normas de gênero que possibilitam a emergência de conflitos identitários com essas mesmas normas”, afirma a autora.

O livro nos informa como os sujeitos sofrem quando tentam construir suas identidades mediante deslocamentos. Para a antropóloga, a despatologização da transexualidade significa politizar o debate.

Ao longo de três anos, Berenice Bento entrevistou transexuais no Brasil e na Espanha (em Madri, Valência e Barcelona), onde encontrou uma infinidade de tipos que a ajudaram em seu trabalho de desconstrução do transexual universal: mulheres transexuais feministas, mulheres transexuais despolitizadas, transexuais que acreditam que a cirurgia os conduzirá a uma humanidade negada, transexuais que não querem a cirurgia e a denunciam como um engodo, transexuais que reivindicam exclusivamente a mudança do nome e do sexo nos documentos.

No processo de desconstrução do transexual universal, a autora desenvolve uma reflexão sobre gênero e sexualidade. Ela mostra que a transexualidade é uma experiência que está localizada no gênero e que as cirurgias de transgenitalização e as outras mudanças que acompanham o processo transexualizador nada revelam sobre a orientação sexual do sujeito. “A reivindicação dos/as transexuais é, sobretudo, o reconhecimento como membro do gênero com o qual se identifica, o qual estaria em discordância com suas genitálias”, afirma.

Ao propor o reconhecimento da transexualidade no âmbito das questões de gênero, o trabalho de Berenice propõe também reconhecer que há muitas possibilidades de se fazer gênero, para além de uma relação retilínea do tipo mulher-feminino, homem-masculino. A autora salienta também a importância do debate sobre os direitos sociais e políticos dos sujeitos que vivem o gênero fora do binarismo, como são os travestis, os transexuais, as transexuais, os transgêneros.

Veja o convite do lançamento dos livros na ABRASCO e outros títulos da coleção Sexualidade, gênero e sociedade.

Publicada em: 22/08/2006

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