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Compromisso com luta anti-racista


O SOS Corpo - Instituto Feminista para a Democracia, organização da sociedade civil que tem no feminismo a base de sua ação institucional, comemora 25 anos de atividades em 2006. Sediada em Recife, Pernambuco, no Nordeste do Brasil, a instituição visa contribuir para a democratização da sociedade brasileira através da promoção da igualdade de gênero com justiça social. O CLAM integra iniciativas em parceria com o SOS Corpo, apoiando esta importante organização, e publica, abaixo, a cobertura da solenidade de comemoração pelos seus 25 anos, em texto gentilmente cedido, escrito pelas jornalistas Cristina França e Márcia Laranjeira. Ao longo de 2006, estão previstos ainda uma exposição de fotografias sobre “Feminismo no exílio” e lançamentos de livros.

 

As comemorações dos 25 anos de atuação do SOS Corpo - Instituto Feminista para a Democracia, sediado em Recife, Brasil, foram iniciadas com uma reflexão da filósofa Sueli Carneiro, diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Doutora em Filosofia da Educação pela USP, Suely fez uma conferência para 300 pessoas sobre o tema “O Não Ser Como o Fundamento do Ser: A Perversidade do Contrato Racial no Brasil”, baseada em sua tese de doutorado.

A filósofa discorreu sobre a “absoluta prevalência da branquitude na estrutura social brasileira, onde a negritude manifesta-se como paradigma da inferioridade”.

Em seu trabalho, Sueli se baseia nos conceitos foucaltianos de biopoder e dispostivo – que inclui discursos, instituições, enunciados científicos, arquitetônicos, nos campos do saber, poder e subjetivação - e de Charles Mills - com o contrato racial sendo a expressão política, social e econômica da supremacia branca.

         Segundo Sueli, o não ser branco fundamenta todos os dispositivos de racialidade e basta como explicação para o que se revela nas estratégias que visam o controle sobre a vida do ser negro. A pesquisadora citou dados: a mortalidade materna entre mulheres negras é 6.6 vezes maior que entre as brancas e, na presença de miomatoses, a histerectomia é o primeiro remédio, diferentemente do que acontece com mulheres brancas, onde o tratamento expectorante é prioritário. Está claro que nem a classe médica nem o Ministério Público têm interesse em conhecer e fazer valer as singularidades em função da raça, já que negras sofrem mais de pressão alta na gravidez e têm tendência acentuada a miomatoses”.

         Paralelo ao dispositivo da racialidade/biopoder expressando-se sobre a situação reprodutiva da mulher negra, há a violência expressa no corpo do homem negro: o Brasil é o quarto país em matança de jovens e a mortalidade negra é 74% superior à branca, segundo  dados da ONU. “Neste contexto, a resistência negra é antes de tudo a luta pelo direito à existência. Os sujeitos políticos resistentes e sobreviventes, testemunhas deste contrato social, continuam a convidar o ser hegemônico (branco) a abdicar e reconstruir”.

Desta maneira, o SOS Corpo prestou homenagem às mulheres negras por sua longa trajetória de luta contra o racismo e pela igualdade. Com esta finalidade, reuniu 25 mulheres com atuações diversas: na luta sindical, na defesa do direito à terra, no campo da cultura, da educação, da saúde, na gestão pública, na valorização do trabalho doméstico, da luta comunitária. Com uma declaração emocionada, Josefa Conceição, militante do movimento de luta contra HIV-Aids, deu o tom à homenagem, ao dedicá-la “a todas as mulheres anônimas com quem compartilhamos esta luta”, numa referência às milhares de mulheres negras que fazem do direito à existência com dignidade uma lida cotidiana.

         Na solenidade, o SOS Corpo afirmou publicamente seu “compromisso com a luta anti-racista”, nas palavras da socióloga Betânia Ávila, coordenadora geral e fundadora do Instituto. Ao chamar a atenção para a radicalização democrática que levou o Instituto a iniciar as comemorações pelos 25 anos abordando a questão do racismo, Sueli Carneiro sublinhou o fato de que na “polarização branquitude /negritude, todos os brancos são beneficiários, mas nem todos são signatários do contrato social que possibilitou esta polarização. Entre os não signatários”, destacou, “inclui-se o SOS Corpo”.

         Ao final da fala de Sueli Carneiro, a coordenadora geral do SOS Corpo Betânia Ávila salientou a simbiose entre conhecimento e ação, sendo o primeiro estratégico para a profundidade do problema social brasileiro. “O feminismo da transformação social é fundamentalmente anti-racista, este é o recado do SOS Corpo esta noite”.

 

Por Cristina França (Oficina de Notícias) e Márcia Larangeira (SOS Corpo)

Publicada em: 04/04/2006

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