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‘Efeito Butler’

Por Marlene Wayar*

Desfazendo Gênero, o seminário realizado em Salvador (Bahia) entre os dias 4 e 7 de setembro, reuniu ativistas e pesquisadores do Chile, Argentina, Brasil, Espanha, Portugal e República Dominicana, em seis mesas redondas, 71 simpósios, além de 50 oficinas e 759 obras, entre performances, obras teatrais e recitais. O evento teve como convidada a filósofa Judith Butler, que iniciou no Brasil uma viagem latino-americana que também inclui Buenos Aires. Butler concedeu a seguinte entrevista a Marlene Wayar, publicada no suplemento SOY, do jornal portenho Página 12, anticipando a chegada da teórica norteamericana àquela cidade. O breve diálogo indaga quanto a experiência latino-americana tem para oferecer à teoria anglo-saxônica e vice-versa.

O que você leva para casa da sua participação no Desfazendo Gênero?

Este evento é importante porque implica duas metas. A primeira é mostrar como os estudos queer e lgbt em geral são uma parte crucial da academia de hoje. As pesquisas contemporâneas em gênero, sexualidade e minorias são hoje as que estão à frente. Em segundo lugar, este encontro une ativistas e acadêmicos. Às vezes os acadêmicos são também ativistas, outras vezes os ativistas não são acadêmicos ou os acadêmicos não são ativistas, mas é crucial que estejam em diálogo. E este é um diálogo bonito. Quando é hora de pensar e quando é o momento de agir? E quando for momento de agir, como fazer isso? Cruzar estas duas perguntas nos habilita a ver como a academia pode alimentar o ativismo e como o ativismo pode recordar a academia de suas obrigações políticas e éticas.

O que a experiência dos movimentos LGBTI latino-americanos têm a oferecer ao resto do mundo?

Penso que o ativismo na América Latina, que tem distintas coordenadas e referências com relação ao norte-americano, é importante por vários motivos. Muitos destes países têm saído de ditaduras não faz muito tempo e ainda estão lutando para terminar de construir a democracia e a ideia do que seria uma democracia sexual, que significa ser cidadãos sexuais e que aqueles que têm sido marginalizados por conta do gênero, etnia ou classe exerçam seus direitos de participar e de pertencer à cidadania. Isto é importante porque, por um lado, as minorias sexuais devem ser reconhecidas como cidadãs e, por outro lado, têm uma crítica a oferecer à noção de cidadania contemporânea. Têm a oferecer uma crítica ao nacionalismo, uma crítica à homofobia, à transfobia, ao racismo, e não querem ser assimilados a uma ideia de cidadania baseada nessas exclusões. Com os estudos queer y lgbt temos a oportunidade de repensar a democracia em um sentido radical. Todo o mundo tem muito que aprender dos movimentos de resistência latino-americanos. Estes têm modos distintos de operar e aqueles que os integram sabem o que é se levantar para defender a integridade de um corpo, entendem o que é lutar por exercer os direitos a uma livre sexualidade, tanto na rua como nos locais de trabalho e na vida privada. É uma história diferente de resistência, uma história diferente de luta pela democracia, de modo que o resto do mundo precisa escutar e aprender. Por isso estou aqui.

Falando em ativismo, qual a importância do artivismo?

Neste congresso percebi que o ativismo que acontece através da arte performática, da palavra falada, da poesia e das artes visuais é muito importante por ser uma forma de penetrar no espaço público e reestruturá-lo. Reestruturar o que pode ser dito em público, o que pode ser mostrado, quem pode aparecer. Aqueles que estão se escondendo e os que estão às margens podem aparecer de outros modos por meio da arte, ainda que sendo monstruosos, desafiantes, borderline, radicais. Ao quebrar as regras que governam o espaço público através de formas de arte, está se levando adiante um ativismo radical que e mostra tanto ao ativismo como à academia a centralidade do corpo e das políticas em torno do corpo. Consegue fazer com que o corpo se manifeste de uma nova forma.

* Marlene Wayar estudou psicologia social na Universidad Popular de Madres de Plaza de Mayo, dirige o periódico travesti latino-americano “El Teje” e é cronista de diversos meios. É coordenadora geral de Futuro Transgenerico e co-fundadora da Red Trans de Latinoamérica y el Caribe “Silvia Rivera” e da cooperativa têxtil Nadia Echazú.

Entrevista publicada originalmente no suplemento SOY do jornal Página 12.

http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/soy/1-4174-2015-09-12.html

 

http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/soy/1-4174-2015-09-12.html

Publicada em: 16/09/2015

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