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Relações raciais em novas abordagens

Miscigenação foi tema discutido na comunicação da pesquisadora Denise Ferreira da Silva, da Universidade da Califórnia, que participou da primeira mesa – Raça, Desejo e Sexualidade. No estudo “Racismo à brasileira” ela questiona a chamada democracia racial brasileira e apresenta a miscigenação como processo de eliminação da raça negra, e que acabou produzindo um sujeito social moderno – o mestiço, celebrado como figura representativa da brasilidade. Denise discutiu a lógica da obliteração que a figura do mestiço encarna – segundo ela, a expressão do desejo destrutivo. “Quando eu olho para a construção do sujeito nacional brasileiro, eu vejo como o branqueamento e a democracia racial constituem narrativas que são organizadas pela lógica da obliteração”.

Outra figura símbolo da brasilidade – a mulata – foi o enfoque da palestra da antropóloga Sonia Giacomini, da PUC/Rio. Não a mulata dos romances de Jorge Amado, mas a mulata profissional. Sonia apresentou o trabalho que desenvolveu junto a alunas de um curso de profissionalização de mulatas – “Profissão Mulata: natureza e aprendizagem num curso de formação”. “Meu objetivo foi ver como uma categoria racial se transforma numa categoria profissional e qual o significado dessa transformação”, explicou a antropóloga.

Na mesma mesa, a comunicação da pesquisadora Maria Filomena Gregori tratou de pornografia e suas interfaces com o feminismo. “Se essas foram práticas sociais tomadas inicialmente como expressões antagônicas, hoje assistimos a criação de um erotismo politicamente correto que coloca questões para a percepção da violência no âmbito privado”, disse ela.

Na mesa “Raça, Afeto e Conjugalidade” o professor da Universidad Del Valle (Colômbia) Fernando Urrea mostrou as relações de raça e gênero em comunidades populares da cidade de Cali.

As uniões inter-raciais foi o tema da comunicação da antropóloga Laura Moutinho, que discutiu a questão dos relacionamentos afetivo-sexuais entre negros e brancos. Para tanto, a pesquisadora articulou marcos interpretativos e teóricos – usando autores clássicos da historiografia brasileira – com material empírico, citando relatos etnográficos concebidos durante o trabalho de campo. Essa articulação culminou no livro “Razão, cor e desejo”, lançado durante o seminário. Na palestra, a professora mostrou alguns destaques sutis do racismo nas relações hetero e homossexuais heterocrômicas.

A mesa “Trajetórias Juvenis, Sexualidade e Intervenção Social” reuniu as pesquisadoras Simone Monteiro, do Instituto Oswaldo Cruz da Fiocruz, Mara Viveros, da Universidad Nacional de Colômbia, e Ângela Figueiredo, da UFBA. Simone apresentou resultados de sua investigação com 42 jovens de comunidades populares que participaram de projetos sociais de profissionalização. “Meu objetivo era identificar a repercussão desses projetos na trajetória de vida desses jovens”, disse ela. O estudo mostrou que a participação nesses programas traz resultados benéficos aos jovens quanto à noção de cidadania e de saúde sexual e reprodutiva.

Na mesma linha, Mara Viveros apresentou o trabalho “O Governo e a sexualidade juvenil”, uma reflexão sobre os programas institucionais e seus efeitos na percepção de sexualidade de jovens e adolescentes escolarizados de Bogotá.

Ângela Figueiredo apresentou dados da pesquisa GRAVAD relativos à raça, cor e sexualidade.

Abrindo a mesa “Raça e Sexualidade: gênero e geração”, o pesquisador Osmundo Pinho, do CEAB/UCAM, apresentou sua pesquisa em curso – “Raça, gênero que faz uma leitura das diversas facetas das relações raciais na periferia do Rio de Janeiro e da experiência da modernização num bairro popular.

A comunicação da pesquisadora Fátima Cechetto, do Instituto Oswaldo Cruz da Fiocruz, tratou da interface de raça, gênero e saúde reprodutiva entre jovens de camadas populares num contexto marcado pela violência urbana e pela discriminação racial. Outro tema enfocado na apresentação foi o peso da cor no mercado de trabalho.

A ativista sul-africana Jane Bennett, da Universidade da Cidade do Cabo, falou sobre a construção da sexualidade na África do Sul pós-apartheid e o reposicionamento social e político dos africanos com o fim do regime.

Intitulada “Raça e etnia: saúde e diversidade cultural”, a quinta mesa foi iniciada com a apresentação do pesquisador argentino Hernán Manzelli, da Universidade de Buenos Aires, que apresentou os resultados de uma pesquisa realizada em 2001 com adolescentes argentinos, onde buscou analisar as representações do significado de ser homem.

Em seguida, o antropólogo Carlos Coimbra, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, tratou da saúde dos povos indígenas brasileiros. O pesquisador verificou que os indicadores de saúde da população indígena são bem piores que os do restante da população. “A política de maternidade segura do governo, por exemplo, não atinge essas mulheres, quando elas são as que possuem maior taxa de fecundidade”.

Discorrendo sobre a hierarquização social e as condições de saúde entre negros e brancos, a pesquisadora Fernanda Lopes (USP) encerrou a mesa com a constatação de que “é preciso nortear as ações e programas de saúde, de modo que as desvantagens simbólicas e materiais sejam considerados fatores determinantes das vulnerabilidades da população negra”.

A última mesa do seminário – “Raça e etnia: políticas regionais de saúde” foi aberta pelo antropólogo Peter Fry (IFCS/UFRJ), que tratou da doença anemia falciforme, desde sua descoberta associada à raça negra. Peter tratou, em especial,
da maneira pela qual a rede discursiva que se formou em volta da anemia falciforme nos últimos anos se relaciona com recentes mudanças no discurso sobre “raça” no Brasil.

O pesquisador Josué Laguardia, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, tratou das políticas de saúde e as implicações assistenciais para a população negra. Assim como Peter, Laguardia falou da associação de doenças à raça negra. O pesquisador alertou para o fato de que “a correlação pouco crítica entre doença e raça pode comprometer o avanço da ciência, limitar a prevenção primária e perpetuar idéias que atribuem à raça o que é devido, na realidade, a fatores sociais”.

Falando sobre a epidemia da Aids em Moçambique, Luiz Henrique Passador, doutorando em antropologia da Unicamp, foi o último a se apresentar na sexta mesa. Segundo o pesquisador, as campanhas governamentais para conter o vírus da Aids se mostram ineficientes no país, com 99% da sua população negra. Luiz assegura ainda que é necessário que os moçambicanos sejam escutados para que a crise seja interrompida.

Conferências encerravam as apresentações das mesas

“Estamos longe daquele paraíso sexual imaginado”, afirmou a antropóloga Maria Luiza Heilborn, durante sua conferência no Seminário Internacional Raça, Sexualidade e Saúde, realizado entre os dias 3 e 5 de novembro, na Universidade Cândido Mendes, numa iniciativa do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM), do Centro de Estudos Afro-Brasileiros (CEAB) e da Fiocruz. Maria Luiza referia-se ao imaginário popular do brasileiro como povo sexualmente aberto. Pesquisas apontam, em relação à população jovem, que a sociedade brasileira é bastante “careta”, e fazem com que alguns mitos caiam por terra.

“A sexualidade é determinada por razões sociais. A raça não tem efeito sobre a idade da iniciação sexual. A iniciação sexual das mulatas, por exemplo, é mais tardia”, relatou a antropóloga, citando resultados da pesquisa GRAVAD, um estudo multicêntrico que investiga o comportamento sexual e reprodutivo dos jovens brasileiros, realizado pela UERJ, UFBA e UFRGS, nas cidades do Rio, Salvador e Porto Alegre. Das três cidades, Salvador é a que apresenta um maior contingente de negros e, apesar disso, é também onde a iniciação sexual é mais tardia.

A pesquisadora Verena Stolcke (Universidad Autônoma de Barcelona) dissertou em sua conferência sobre o período colonial ibérico nas Américas e suas relações com gênero e sexualidade. “Quando falo em gênero, não me refiro somente às mulheres, mas sobre a construção sócio-política das mulheres em suas relações com os homens. A experiência ibérica colonial nos permite transcender à liturgia convencional de classe, raça e gênero. Essa experiência nos dá um claro exemplo de como sexo/gênero, etnicidade/raça e classe interagiam com o novo sistema de identidade social, classificação e discriminação que emergiu no Novo Mundo e das conseqüências que a moralidade sexual e os esteriótipos de gênero tiveram na experiência das mulheres em todas as esferas de suas vidas”, explicou Verena.

Na conferência de Cathy Cohen, da Universidade de Chicago, o tema abordado foi a sexualidade de jovens negros nos Estados Unidos. A pesquisadora americana realizou, ao longo de 2004, entrevistas com jovens de idades entre 18 e 24 anos, das mais diferentes orientações sexuais. Ela destacou a questão de se perceber a conjuntura em que esses jovens vivem como um todo: “se continuarmos a focar apenas os efeitos negativos dos comportamentos dos jovens – como Aids e gravidez na adolescência – não estaremos percebendo o papel do estado, condições econômicas e outros processos macro-estruturais na construção de suas identidades e atitudes”.

Durante o evento foram lançados os livros Razão, “Cor” e Desejo (Ed. Unesp), de Laura Moutinho, e Etnicidade na América Latina: um debate sobre raça, saúde e direitos reprodutivos (Ed. Fiocruz), organizado por Simone Monteiro e Lívio Sansone.

Publicada em: 15/12/2004

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