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Em busca do aborto visível

Por Marcelle Souza*, Alessandra Brigo** e María Antonella Barone***

 

 

 

O filme “Invisível”, do diretor Pablo Giorgelli, narra a história desde o ponto de vista da personagem Ely, que vive na Argentina, mas conecta-se às vivências de muitas pessoas que enfrentam a problemática do aborto em quase todos os países da América Latina, onde quem decide pela interrupção pode ser criminalizado.

Trata-se da história de uma jovem de 17 anos de classe baixa, que está no último período do ensino médio e vive no bairro de La Boca, na periferia de Buenos Aires. Fica grávida e rejeita as possíveis consequências desse fato sobre sua vida. Ely entra em colapso com o “positivo” do teste de gravidez. “Invisível” promete, em sua sinopse, abordar o momento em que ela precisa tomar uma decisão que “mudará a sua vida”.

Um dos grandes méritos do filme é contar essa história por meio dos silêncios. Os diálogos estão quase ausentes nas relações de Ely. Uma mãe depressiva com quem mora e por quem Ely se vê responsável tanto emocional como economicamente; uma amiga, que busca meios de ajudá-la com informações da internet sobre como fazer um aborto; um chefe, dono da clínica veterinária, que só dá ordens; e um amante, o filho do chefe, com quem ela mantém relações sexuais esporádicas. Todas essas personagens falam pouco e falam quase sozinhas. Ely responde quase sempre com silêncios, em uma aparente apatia, que ora se mistura com preocupação, ora com tristeza e solidão. Desse modo, do início ao fim, o filme mostra a sua vivência (quase) abortiva.

Esse vazio significativo, porém, é rompido em uma das primeiras cenas do filme: ao ser comunicada da gestação pela médica que a atende, Ely é assertiva, está decidida a interromper a gravidez e anuncia isso à medica. A doutora não suporta a menina, lembra a jovem que o aborto é ilegal na Argentina e tenta encaminhá-la para o pré-natal. Mas Ely continua firme na sua escolha e é nessa busca por um método seguro e eficaz que caminha o filme.

O contexto de criminalização e ilegalidade do aborto na Argentina potencializam a experiência de insegurança de realizar o procedimento. Em determinado momento, ainda em meio aos silêncios, a jovem percorre farmácias na companhia de uma amiga até conseguir comprar o medicamento de um farmacêutico que lhe vende por meio do comércio ilegal.
 
Após ter procurado informações na internet e obtido os remédios abortivos, Ely conta ao amante (um homem mais velho, casado) sobre a gravidez. “Como isso foi acontecer?”, pergunta o homem que é mais velho e “pai de família”, “Nós sempre nos cuidamos”, emenda. E ela responde: “Nem sempre”.
 
Ele então obtém informações de uma clínica que pagaria. Ela devia procurar a pessoa indicada e marcar um horário, mas hesita em fazer a ligação. Após ser questionada pelo homem, Ely acaba encontrando com uma pessoa que lhe explica todo o procedimento. No dia e hora agendados, ambos vão até a clínica para fazer a aborto.
 
Aqui, é importante citar que o homem, em sua posição hierárquica de gênero e de geração em relação a Ely, impõe urgência e decide o modo com que será feita a interrupção da gestação. Ely não argumenta e, ensaia uma resistência, mas acaba embarcando no carro a caminho da casa de uma médica onde funcionava a clínica de aborto.
 
Há, então, uma reviravolta ao fim do filme. Da mulher que decidiu, que encarou a médica dizendo que não iria gerar um filho não planejado, entra uma jovem que coloca a mão na barriga e, pouco tempo depois, desiste do aborto perseguido durante toda a narrativa.
 
Ely sai da clínica sem fazer o aborto e não conta a decisão para o amante. Diz apenas que foi tudo bem, pede demissão do emprego e chega em casa cansada, mais uma vez em silêncio. Nesta cena final, ela senta no sofá e põe novamente as mãos no ventre, ensaia um leve sorriso de resignação.
 
O diretor, desse modo, não nos apresenta um final decisivo, mas remete-nos à suposta ideia de que, após um longo percurso, a jovem acabou desistindo do aborto. Resta-nos então a pergunta: esse final marca um suposto “amor ao feto” ou uma hesitação decorrente do medo do aborto ilegal?
 
No primeiro caso, seria como se a mulher decidida do início, na verdade, não soubesse que estava sim “pronta para a maternidade”. Enquanto pesquisadoras, somos automaticamente levadas ao “mito do amor materno”, que Elisabeth Badinter trata em seu livro “Um amor conquistado”, como se a maternidade fosse algo latente na mulher e Ely só ainda não soubesse identificá-lo.
 
Por que ela não usou os remédios, método que ela havia escolhido e que é reconhecido como seguro?
 
A protagonista gasta muito tempo e dinheiro procurando os medicamentos, chega a marcar o dia em que faria o procedimento na casa da amiga, e em momento algum parece ter dúvidas sobre sua escolha. Ao contrário, quando o amante propõe a clínica, Ely parece estar muito nervosa frente a esse outro método, e o espectador acaba não conhecendo a escolha final da menina. A última imagem, com a mão no ventre, remete-nos ao feto que até então não estava em questão. Em nenhum momento anterior tínhamos visto Ely pensando nele ou em qualquer possibilidade que não fosse o aborto.
 
Em tempos de discussão sobre a autonomia da mulher, o filme nos apresenta um homem autoritário e um contexto de ilegalidade e insegurança relacionados ao aborto (infelizmente, muito atuais), mas peca, ao nosso ver, em desconstruir a certeza que Ely carregava no início. Mais uma vez a decisão da mulher posta em xeque.
 
Com isso, nos perguntamos: Qual é a mensagem do filme? Quais seriam as ideias propositais de mostrar os percursos nas farmácias e a possibilidade de compra do medicamento de modo ilegal? Não
 
se poderia pensar em uma possível denúncia das possibilidades existentes para aqueles corpos que decidem abortar?
 
Por um lado, o filme é capaz de nos mostrar a realidade da ilegalidade do aborto a partir da dificuldade de acessar os medicamentos, a necessidade de conhecer as pessoas certas e de ter dinheiro suficiente para arcar com os custos. Por outro, frustra-nos saber que a narrativa perdeu uma grande oportunidade de aprofundar o debate sobre o tema.
 
O filme ainda retrata o aborto como um procedimento “Invisível”, algo que não pode ser visto inteiramente, reforçando talvez o mito do trauma atrelado a ele. De certo modo, pode dar coro aos argumentos contrários à legalização do aborto.
 
A distribuidora no Brasil, Vitrine Filmes, divulgou o filme associando-o à luta pela legalização do aborto. Essa até poderia ser a intenção do diretor, mas não é o que se tem percebido na internet, já que o filme tem sido compartilhado também em sites contrários ao direito ao aborto.
 
Se um mesmo filme pode virar uma ferramenta para duas lutas tão contrastantes, é porque está num limbo. Mas já passou da hora de termos filmes que falam sobre o aborto na América Latina sem limbos, sem máscaras, sem imagens escondidas.
 
Perdeu-se ainda a oportunidade de desmistificar no filme a experiência do aborto provocado, tantas vezes apresentado como uma experiência dolorida, traumática e sempre insegura. O que muitas colegas pesquisadoras e ativistas têm nos mostrado, por outro lado, é que o amor materno é culturalmente construído, que um aborto pode significar um alívio, e que apesar de ilegal pode sim ter riscos reduzidos, desde que utilizados os métodos adequados e as informações corretas. As mulheres abortam porque querem, em geral precisam recorrer a um sistema ilegal e inseguro, muitas vezes contam com a ajuda de outras mulheres, e isso precisa tornar-se Visível.
 
Por fim, reivindicamos abortos cuidados e feministas, em que seja possível acionar uma grande rede em torno dessa prática. Isso porque abortar, longe de ser uma experiência traumática, pode devolver a capacidade de autonomia dos corpos de autodeterminar o que é melhor para si. Essa reflexão é o que tem permeado as nossas trajetórias como pesquisadoras e ativistas. Outras histórias precisam ser contadas, muitos corpos estão cansados de ter que afogar o alívio de se livrar do fardo de uma fecundação indesejada. Visibilidade é o que temos que dar a essas histórias que, em suas singularidades, sangram vida e têm muito a nos dizer.
 
 
*Mestra e doutoranda pelo PROLAM-USP (Programa de Pós-graduação Interunidades em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo). Bolsista Capes.
**Doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social e colaboradora do CLAM. Bolsista Faperj.
***Mestranda em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa em Sexualidades (GEPS) UFES. Bolsista CAPES.
 
Links para aprofundar:
 
GUTTMACHER INSTITUTE. Hoja informativa: Aborto en América Latina y Caribe, 2016. Disponível em: https://www.guttmacher.org/sites/default/files/factsheet/fs-aww-lac-es.pdf/ Acesso em 30 set. 2016.
 
Na Argentina, estima-se que ocorram entre 486 mil e 522 mil interrupções voluntárias de gestação (MARIO; PANTELIDES, 2009). MARIO, S.; PANTELIDES, E. A. Estimación de la magnitud del aborto inducido en la Argentina. In: CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe). Notas de población, ano XXXV, n. 87, Santiago do Chile, 2009.
 
BADINTER, Elisabeth. Um Amor Conquistado: o Mito do Amor Materno. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
 
OMS (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE). Abortamento seguro: Orientação Técnica e de Políticas para Sistemas de Saúde. Genebra, 2013. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/70914/7/9789248548437_por.pdf/ Acesso em 15 de ago. 2017.
 
"Allanan la farmacia de mutual sentimiento: quieren sacar el misoprostol de las farmacias" Disponível em: http://www.agenciapacourondo.com.ar/generos/allanan-la-farmacia-de-mutual-sentimiento-quieren-sacar-el-misoprostol-de-las-farmacias/ Acesso em 20 de dez. 2017

Publicada em: 29/12/2017

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