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Brasil

Alto índice de discriminação

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Um número extraordinariamente alto de entrevistados (72,1%) na pesquisa Política, Direitos, Violência e Homossexualidade, realizada na Parada do Orgulho GLBT de São Paulo de 2005, disse já ter sido vítima de algum tipo de discriminação devido à sua orientação sexual. Dentre as 2,5 milhões de pessoas que compareceram à Avenida Paulista, 973 responderam à pesquisa relatando ter sofrido discriminação no trabalho, no comércio, no sistema de saúde, na escola ou faculdade, no ambiente familiar, entre amigos e vizinhos, ou ao precisar de auxílio em delegacias. O estudo resultou em uma publicação, a qual foi lançada na segunda-feira, 26 de junho, no Auditório da Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania de São Paulo (Pátio do Colégio, 148).

O caso paulista aprofunda as tendências observadas em 2004, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, onde a pesquisa já havia sido realizada. Nessas cidades, embora igualmente altos, esses índices foram ligeiramente inferiores: 64,8 % para o Rio de Janeiro e 61,3% para Porto Alegre.

Elaborada pelo CLAM e Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec/Universidade Cândido Mendes), a pesquisa Política, Direitos, Violência e Sexualidade vem sendo realizada desde 2003 em paradas do orgulho GLBT de diferentes cidades. Em São Paulo, o projeto foi possível graças à articulação com a Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, o Departamento de Antropologia da USP e o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Universidade Estadual de Campinas.

Os resultados obtidos em São Paulo indicam o círculo de amigos ou vizinhos como ambientes onde gays, lésbicas e transgêneros são mais discriminados: um terço (34%) dos entrevistados afirmaram ter sido discriminados nesses contextos. De perto, seguem as situações de marginalização ou exclusão na escola ou faculdade (32,6%). Em terceiro lugar vem a discriminação ocorrida em ambiente familiar (24,8%).

“Essas três primeiras modalidades de discriminação têm em comum o fato de ocorrerem em esferas de sociabilidade que colocam em cena pessoas íntimas (familiares e amigos) ou ao menos conhecidas (colegas, professores, vizinhos)”, observam os autores do documento, os pesquisadores Sérgio Carrara (CLAM), Silvia Ramos (Cesec), Julio Assis Simões (USP) e Regina Facchini (APOGLBT-SP).

A discriminação em ambiente religioso aparece em quarto lugar, com freqüência de 22,7%. Em seguida, duas situações de discriminação ocorrem em contextos de interações públicas: em espaços comerciais ou de lazer (19,6%) e em delegacias (17,9%).

Outro fato que o documento chama a atenção: o número de participantes que declarou ter sido impedido de doar sangue devido à sua orientação sexual foi relativamente alto (16,1%): “Especialmente se considerarmos que apenas uma parcela da população entrevistada provavelmente já tentou doar sangue”, relatam os autores.

Por último, aparecem a discriminação no trabalho ou em situações de emprego (16%) e nos serviços de saúde (12,1%).

Trans são as maiores vítimas

O documento analisou ainda a discriminação em cada um dos ambientes citados por sexualidade agregada - quem sofre maior discriminação e onde essa discriminação acontece.

Assim, segundo a investigação, enquanto no círculo de amizades e vizinhos são os homens homossexuais os mais discriminados, em se tratando da escola, os homens bissexuais são os mais excluídos por colegas ou professores. Em casa, no círculo familiar, as lésbicas são as que mais freqüentemente mencionam experiências de marginalização e exclusão. Nos ambientes religiosos, o(a)s trans são as maiores vítimas: 45,6% deles referiram experiências de exclusão e marginalização, número destacadamente superior aos demais.

“Esse fato indica, possivelmente, que as dinâmicas de discriminação nesses ambientes têm diretamente a ver com a visibilidade da sexualidade. Ou seja, mais do que dinâmicas sutis de marginalização, esses números podem expressar situações abertas de constrangimento e expulsão”, analisam os autores.

O mesmo grupo é também o mais discriminado nos estabelecimentos comerciais ou nos locais de lazer: 47,5% do(a)s trans relataram já ter sido vítima de mau atendimento nesses locais ou até mesmo terem sido impedido(a)s de neles ingressar.

Uma proporção expressiva, 18% do total de entrevistados, afirmou já ter sido maltratada por policiais ou mal atendida em delegacias devido à orientação sexual. “Considerando-se que a experiência de ir a uma delegacia ou ser abordado(a) por policiais não é cotidiana, a parcela que sofreu esse tipo de discriminação pode ser considerada alta”, analisa o documento.

Porém, essa freqüência cresce para patamares extraordinariamente altos quando o grupo trans é analisado isoladamente: 46,8%, chegando a 63,2% entre “transexuais”. Entre os homens homossexuais entrevistados, 16,9% afirmaram já ter sofrido essa discriminação, o mesmo ocorrendo com 15,8% dos homens bissexuais. As mulheres homossexuais e bissexuais aparecem em proporções menores, com 12,2% e 4,3%, respectivamente. A experiência de mau atendimento em delegacias ou maus-tratos por policiais é mais acentuadamente masculina (21,5%) do que feminina (10,2%).

O(A)s trans, “travestis” e “transexuais”, também formam o grupo majoritário do(a)s que não foram selecionado(a)s no emprego ou que foram demitido(a)s em razão de sua sexualidade (37,5%), e os que mais freqüentemente afirmaram já terem sido mal atendido(a)s em serviços de saúde ou por profissionais de saúde (25%).

O documento estará disponível no site do CLAM (seção “documentos”) a partir do dia 26 de junho, data do lançamento.

Publicada em: 20/06/2006

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