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Gravidez na adolescência é foco de debate

Estabelecer parcerias com instituições que desenvolvem pesquisas na área de gênero a fim de formular políticas públicas direcionadas à essa questão. Esta é a idéia da ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, que participou do seminário “Juventude e Contracepção”, promovido pelo Instituto de Medicina Social (IMS) da Uerj no dia 28 de maio. A ministra apresentou sua idéia de intervenção nas políticas dos Ministérios da Educação e da Saúde que dizem respeito à mulher. O objetivo é fazer com que os resultados de pesquisas sobre gênero sejam integrados nos programas desses Ministérios. A parceria com os Centros que tratam da questão seria o subsídio necessário para o desenvolvimento de políticas que visem minorar os efeitos da discriminação de gênero na sociedade como, por exemplo, políticas públicas de capacitação e qualificação de profissionais das áreas de saúde e educação.

O evento, coordenado pelo diretor do IMS, Ruben Mattos, contou também com a presença de Viviane Castelo Branco, coordenadora do programa de Saúde do Adolescente da Secretaria Municipal de Saúde. Ao falar sobre o tema “O Adolescente e os Serviços de Saúde”, Viviane citou exemplos de discriminação freqüentes e corriqueiros nos hospitais e clínicas. Como o caso de adolescentes grávidas que procuram serviços de saúde públicos e, ao sentirem dor enquanto tomam uma injeção, são logo repreendidas pela enfermeira com frases do tipo “Na hora de fazer (o filho) você não se queixou”, comportamento que, segundo Viviane, mostra o despreparo de muitos profissionais de saúde ao lidar com jovens mães.

A antropóloga Maria Luiza Heilborn, professora adjunta do IMS e coordenadora do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM), apresentou dados relevantes para se entender melhor o quadro da gravidez na juventude, ao falar sobre o tema “Trajetórias Juvenis e Contracepção”. “O termo trajetórias juvenis dá uma idéia de percurso biográfico e chama a atenção da grande diversidade de experiências e mudanças que acontecem nesse percurso”, explicou Maria Luiza, que coordena, a nível nacional, a pesquisa GRAVAD (Pesquisa Gravidez na Adolescência: estudo multicêntrico sobre jovens, sexualidade e reprodução no Brasil).

A pesquisa, realizada por três universidades públicas – UERJ, UFBA e UFRGS – , investiga o comportamento sexual de homens e mulheres entre 18 e 24 anos nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre, onde foram entrevistados 4.634 jovens. “O grupo é extremamente heterogêneo. Ao escolhermos essa faixa etária, pretendíamos saber o impacto da gravidez na adolescência na vida dessas pessoas que, pela idade, permitiria um certo distanciamento temporal em relação ao possível evento de gravidez. Cerca de 30% dos entrevistados tiveram episódio de gravidez na adolescência”, relatou.

Iniciação Sexual e Aids

A GRAVAD apresenta resultados bastante significativos, que servem para desbancar crenças e mitos em torno da questão. O quadro, afirmou a antropóloga, não é de caos. “A literatura geral tende a dramatizar. Através da pesquisa vimos que 26% das jovens estavam unidas com o pai da criança durante a gravidez”.

O estudo mostra ainda que mais da metade das jovens cariocas que tiveram filhos antes dos 20 anos têm primeiro grau incompleto e só 4,2% têm curso superior. “A maioria delas já tinha saído da escola antes de descobrirem-se grávidas, e não abandonaram a escola por causa da gravidez, como as pessoas normalmente acreditam. Ou seja, a evasão escolar como conseqüência da gravidez na adolescência não aparece de forma tão intensa e com índice s alarmantes como costuma ser veiculada”, destacou ela, que apontou a falta de informação um dos pontos chaves da questão. De acordo com a pesquisa 30% das mulheres entrevistadas que engravidaram até os 20 anos nunca tinham conversado com suas mães sobre assuntos como menstruação.

Porém, se falta informação sobre iniciação sexual em casa, o mesmo não se pode dizer sobre informações de doenças sexualmente transmissíveis veiculadas por programas do governo. O Programa de DST- Aids do Ministério da Saúde foi elogiado durante o Seminário. “O Programa é uma campanha pública democraticamente distribuída, que chega a jovens de todas as classes. Neste caso, existe menos desigualdade do que na informação que vem dos pais. Nas famílias de classe social mais alta, os pais tendem a orientar melhor seus filhos. Nesse contexto, jovens de classe social mais baixa recebem menos informação em casa”, disse Maria Luiza.

Um dos dados mais significativos apresentados pela antropóloga no Seminário, resultado de sua pesquisa, foi a mudança de comportamento dos jovens entre a primeira relação sexual, ocorrida na adolescência, e a última. “Constatamos que, na primeira relação sexual, 9% das mulheres usaram métodos medicalizados de contracepção, 55% usaram preservativo e 30% não usaram proteção alguma. Já na última relação, tendo sido ela eventual ou com o parceiro fixo, esse quadro se inverte: 52% disseram ter tomado a pílula, e apenas 25% usaram preservativo”. Situação preocupante, uma vez que tem se constatado um aumento no índice de contaminação das DSTs, em especial da Aids, em mulheres jovens nos últimos tempos. “É preciso que se tenha consciência da importância do uso de ambos os métodos”, concluiu Maria Luiza.

Publicada em: 09/06/2004

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