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Comportamento e práticas sexuais no Brasil: comparação dos inquéritos de 1998 e 2005

Existiria uma diminuição nas diferenças no comportamento de homens e mulheres? Estaria o padrão detectado nas pesquisas de 1998 e 2005 finalizando um processo de mudança nos padrões de comportamento e práticas sexuais no Brasil, tal como tem sido registrado na França e na Inglaterra? Seriam essas mudanças fruto de um possível impacto da epidemia do HIV/AIDS? Até que ponto as mudanças observadas podem ser, em parte, devido a artefatos metodológicos?

Essas foram algumas das questões colocadas na apresentação da pesquisadora Regina Barbosa. “A proporção de homens e mulheres que referiu ter tido relações sexuais alguma vez na vida se manteve inalterada para os grupos populacionais em 1998 e 2005, com uma pequena diferença por sexo, acusando uma proporção maior entre os homens, mas não estatisticamente significativa”, afirmou a professora.

Segundo ela, entre os dois períodos, houve um aumento no número de mulheres sexualmente ativas na região sul – novamente associado a jovens de 16 a 24 anos e mulheres de 25 a 34 anos – resultado que coincide com o constatado pela pesquisa Gravad em relação à região sul.

“Com relação à idade, a proporção de mulheres sexualmente ativas no ano anterior à entrevista não foi homogênea nos dois períodos, com uma diminuição evidente após os 45 anos. Ao mesmo tempo, observamos um aumento na proporção de mulheres sexualmente ativas em 2005 nas faixas etárias extremas de 55 a 65 anos”, disse.

A pesquisadora salientou que, quanto à escolaridade, o padrão observado em 1998 era caracterizado por uma proporção menor de mulheres com vida sexual ativa entre aquelas com nível de ensino até o fundamental, o que confirma a pesquisa de 2005. “Essa característica está associada exclusivamente a mulheres com mais de 45 anos, ou seja, a probabilidade de uma mulher não ter parceiro nos últimos 12 meses é menor entre mulheres com mais de 45 anos e de menor escolaridade. Em contraposição às mulheres, a atividade sexual entre os homens no ano anterior à entrevista não revelou associação com escolaridade”, destacou.

Segundo a convidada, tomando por base a pesquisa de 1998, não foram encontradas diferenças entre homens e mulheres quanto aos padrões referentes à parcerias do mesmo sexo na vida – 3% da população de homens e mulheres referiram relações com pessoas do mesmo sexo. É um padrão bastante parecido ao da França, onde está em torno dos 4%. Porém, os franceses mostram uma estabilidade no tempo e aumento na proporção entre as mulheres”, relatou.

Na análise da pesquisadora, o relato das parcerias homoeróticas entre as mulheres talvez seja mais marcado do que entre os homens por temores de preconceitos e censuras, o que os torna mais passíveis de serem omitidos em um contexto de pesquisa. “Nesse sentido, se isso é verdade, a metodologia de indagação utilizada em 1998 talvez tenha permitido um contingente maior de mulheres referir prática homoerótica. Talvez podemos supor que a pergunta feita neste ano seja mais sensível para captar a relação entre as mulheres”, disse a pesquisadora.

No entanto, os resultados mostram que ambos os sexos transitam pelas experiências homoeróticas de maneira distinta ao longo da vida. Com relação ao número de parceiros no ano anterior à entrevista, a proporção de homens que referiu mais de um parceiro sexual foi aproximadamente cinco vezes maior do que entre as mulheres nos dois períodos, só que esta proporção se manteve inalterada entre as mulheres e diminuiu no grupo de homens. “Estariam os homens mais monogâmicos? Esta é uma pergunta que se coloca”, questionou.

Paralelamente ao fato de existir uma tendência decrescente no número de homens com mais de uma parceira em função da idade, também ocorreu uma diminuição desta proporção entre 1998 e 2005 entre homens de 25 a 34 anos e de 35 a 44 anos. Entre os jovens de 16 a 19 anos, observou-se uma redução de cerca de 15%.

“Observamos nas regiões Centro-Oeste e Sudeste um aumento nas relações estáveis provavelmente por conta dos mesmos homens que referiram menos de uma parceria”, avaliou.

Quanto ás práticas sexuais (sexo oral, vaginal e anal) com o ultimo parceiro tido nos últimos doze meses, quer ele tenha sido estável ou eventual neste momento, houve um aumento de prática de masturbação entre os homens de 37% para 54% e entre as mulheres de 40% para 56%. “Não tenho clareza se esse aumento se deu em função de um aumento de fato ou da sensibilidade da pergunta feita em 2005”, ponderou a expositora.

No Brasil se pratica ou não mais sexo com penetração vaginal? Os dados apresentados pela pesquisadora fazem supor que sim: em 2005 quase 100% das pessoas sexualmente ativas no ano anterior à entrevista relataram prática de penetração vaginal com o último parceiro. “Apenas 1% dos homens e 3% das mulheres não referiram esse tipo de prática, proporções similares às observadas em 1998. Portanto, em um repertório constituído por sexo vaginal, anal e oral, 61% dos homens relataram prática de sexo vaginal como exclusiva em 1998 e, em 2005, 53.6%. Entre as mulheres os números são similares. Não só entre os homens existe um relato maior quando comparamos com os dados internacionais, mas também entre as mulheres”, afirmou.

“Considerando o conjunto da população, não foram encontradas mudanças significativas nos padrões de comportamento sexual de homens e mulheres nos anos de 1998 e 2005. As mulheres iniciam sua vida sexual mais tardiamente, uma proporção menor de mulheres se manteve sexualmente ativa no ano anterior à entrevista, tiveram menos parceiros eventuais e relataram menos múltiplas parcerias”, concluiu a pesquisadora.

Os resultados parecem sinalizar a existência de um padrão de mudança, caracterizado por sucessivas observações com valores reiteradamente negativos para os homens e positivos para as mulheres. “É possível pensar, por exemplo, que mudanças entre os homens seriam melhor compreendidas no registro da AIDS, uma vez que são de diminuição, e das mulheres no contexto das mudanças dos papéis de gênero?”, avaliou Regina Barbosa.

A pesquisadora apontou a dificuldade de se fazer comparações. “O problema no Brasil é manter uma certa periodicidade na realização dos inquéritos, para podermos ter uma idéia precisa se algo se caracteriza realmente como uma mudança. Outro obstáculo que dificulta a comparação, são as análises que não sejam desagregadas por sexo. Não faz sentido, no campo da sexualidade, fazer análises que não desagreguem por sexo”, finalizou.

BERQUÓ, E. (Coord.). Comportamento sexual da população brasileira e percepções do HIV/Aids. São Paulo: CEBRAP/Ministério da Saúde - SPS-CNDST/HIV/AIDS, 1999. (Relatório de pesquisa).

BARBOSA, Regina Maria; KOYAMA, Mitti Ayako Hara e GRUPO DE ESTUDOS EM POPULACAO, SEXUALIDADE E AIDS. Comportamento e práticas sexuais de homens e mulheres, Brasil 1998 e 2005. Rev. Saúde Pública [online]. 2008, vol.42, suppl.1 [citado 2009-05-28], pp. 21-33 . Disponível em: . ISSN 0034-8910. doi: 10.1590/S0034-89102008000800005.

Publicada em: 28/05/2009

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