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Prazeres não-hegemônicos

O livro Prazeres Dissidentes, lançado pelo CLAM e pela Editora Garamond, reúne 20 artigos, os quais levantam a discussão sobre teorias contemporâneas e métodos etnográficos úteis para o estudo de desejos, prazeres, corpos e práticas sexuais tradicionalmente interpretadas como tipos de perversão. O livro explora também como é possível produzir conhecimento das práticas sexuais/eróticas que desafiam os efeitos políticos da abjeção/repugnância e aborda as maneiras como se constroem subjetividades e identidades coletivas a partir de práticas sexuais alternativas, identificando suas condições de produção, suas transformações e os discursos que os agentes utilizam para legitimá-las.

Ao longo das 600 páginas que compõem o livro, percebe-se como algumas dessas sexualidades dissidentes existem no campo da mera experiência, isto é, simplesmente são vividas e compartilhadas a partir de uma consciência prática (não-reflexiva em termos cognitivos). Embora possa haver o reconhecimento de um Nós, isto não é determinante de uma identidade coletiva, senão de certa comunhão de interesses e práticas: os T-lovers e as experiências de incesto consentido  são exemplos de temas trabalhados nesta coletânea por Larissa Pelúcio e Carlos Fígari, respectivamente.

Outras, pelo contrário, parecem anunciar-se como novas categorias sexuais: boylovers , barebackers, discutidos neste volume por Alessandro de Oliveira e Esteban Garcia. Várias dessas práticas se apóiam na intensificação da ação sexual em si mesma, em razão de suas condições históricas de aparição, como o BDSM  (acrônimo para bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo), por exemplo, na análise de Bruno Zilli.

Para Foucault, as práticas que poderiam ser geradas no campo das sexualidades periféricas constituem verdadeiros “laboratórios de experiências sexuais”, nos quais se estabelecem jogos, tensões e deslocamentos na utilização de qualquer parte do corpo como instrumento sexual. Isto é, a obtenção de uma “des-genitalização do prazer” na procura por novas e criativas formas de deleite a partir de objetos ou partes do corpo não-usuais. Nesta coletânea Jorge Leite Jr. traz alguns exemplos a este respeito: as Sexy Smokers ou tabagismo como transgressão erótica, ou mesmo as práticas de abuso facial.

Foucault manifestava também um grande entusiasmo pelo imprevisível das relações que poderiam chegar a ser criadas no mundo das sexualidades periféricas. Talvez já antecipasse que o século XXI traria com ele um espaço-laboratório-chave para corporalidades virtuais, gêneros fronteiriços e encontros interditos – a Internet, ambiente de desejo circulante no qual os próprios sujeitos dissidentes constroem-se, inventam-se, discutem-se, interpelam-se, identificam-se: crossdressers, rede pesquisada por Ana Paula Vencato; homens que gostam de outros homens e que no ciberespaço elaboram diversas apresentações de si, como veremos no artigo de Carolina Parreiras, e os já mencionados homens que gostam de crianças, analisados por Alessandro de Oliveira, são postos em cena (ou em tela) neste livro.

Algumas práticas sexuais dissidentes, mesmo construídas sobre a transgressão, estão longe de ser universos desregrados. Pelo contrário, normas, valores e convenções, por vezes hierárquicas, organizam sua existência. Alguns artigos desta coletânea analisam os limites de tais dissidências, mostrando experiências nas quais se afirmam modelos de masculinidade dominante, por momentos heteronormativa: os encontros entre frequentadores da Vila Mimosa e mulheres que se dedicam à prostituição, no artigo de Elisiane Pasini; as orgias de filmagens pornográficas etnografadas por María Elvira Díaz-Benítez; o clube de mulheres da pesquisa de Marion Arent, em que diversos “garanhões” fazem strip-tease; os encontros eróticos entre “homens de verdade” com travestis e gays praticantes de crossdressing em uma boate do subúrbio carioca, tema trabalhado por Leandro de Oliveira.

Como agem estilo, aparência, raça, classe, idade e performances de gênero na conformação de subjetividades e como pesam em interações, economia da sedução, trocas e circulação do desejo em circuitos não-normativos? Vários autores deste volume se debruçam nesta questão: Isadora França tem como cenário um samba GLS, e Camilo Braz, em clubes de sexo para homens que exercem práticas homoeróticas em São Paulo. Somando o desafio da interseccionalidade, encontram-se os trabalhos de Regina Facchini e Andrea Lacombe, pesquisadoras que atravessam variadas redes de mulheres “lésbicas”, “fanchas”, “entendidas”, “sapatonas”, entre outras classificações que se estabelecem na articulação de diferenças, condutas eróticas, identidades, convenções sociais e corporalidades.

Dissidência significa também deslocamento: de lugar, como os territórios de “pegação” que Alexandre Teixeira analisa em Belo Horizonte; de zonas “legítimas” e por momentos de papéis sexuais “esperáveis”, como acontece entre as travestis e seus clientes na observação de Larissa Pelúcio; de roupa, posturas corporais e experiências de gênero, como os já mencionados homens que se vestem de mulher analisados por Anna Paula Vencato.

Marcelo Mirisola, protagonista do único artigo desta coletânea dedicado à narrativa ficcional, também é um deslocador. Suas páginas estão carregadas de práticas sexuais “estéreis”, corpos e sujeitos caracterizados pela deformidade que, como Regina Coeli Machado e Silva neste volume afirma, ganham visibilidade, sobretudo, por meio de “perturbações” consideradas impuras, infames e malditas. Outras narrativas compõem este volume, aquelas que emanam da memória de mulheres que se dedicaram à prostituição na zona do baixo meretrício, em São Luís, nas décadas de 1960 e 1970, e entenderam com seus corpos o papel social a elas atribuído, como expõe o artigo de Sandra Sousa.

Finalmente, o artigo de abertura desta coletânea, de autoria de Vitor Grunvald, explora o debate sobre a abjeção em uma aguda construção teórica. Aponta uma contiguidade lá onde parece haver um polo em oposição, a abjeção não como o oposto à cultura, mas como um polo de produção possível – “uma ‘política da abjeção’ como ‘política do virtual’, mais do que uma política da performatividade e do reconhecimento”; é a abjeção como insistência não situada em um lugar de exterioridade absoluta, mas sim incorporada como uma lógica não-disjuntiva (no sentido de Kristeva), nem dialética, nem simbólica; lá onde flui o devir não em uma outra coisa, mas sim em uma multiplicidade.

É isto que o livro oferece à comunidade: aos dissidentes, aos não-dissidentes e àqueles que transitam em dissidências contingenciais, líquidas e fluidas. Mediante três artigos: “Retratos de uma orgia”, “Silêncio, suor e sexo” e “Diversidade sexual e trocas no mercado erótico”, de Díaz-Benítez, Braz, e L. Oliveira respectivamente, cujas pesquisas tiveram como base a observação direta em contextos de interação sexual, esta coletânea pretende também cooperar com um campo que, pelo menos no Brasil, não constitui ainda um tema de interlocução consolidado: a “etnografia das práticas sexuais”.

Para a comunidade acadêmica brasileira, especialmente a antropológica, este livro pretende trazer uma contribuição para o fortalecimento de uma linha temática atualmente efervescente: o estudo de corpos e gêneros de fronteira, encontros interditos, sociabilidades fluidas, jogos sexuais proibidos e narrativas obscenas.

Clique aqui para ler a resenha assinada pela antropóloga Adrianna Piscitelli

Publicada em: 04/11/2009

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