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A sexualidade no Chile

Há seis anos, o psicólogo chileno Jaime Barrientos integrou a equipe do Estudo Cosecon: Comportamento Sexual no Cone Sul, primeira pesquisa sobre sexualidade realizada no Chile, depois do longo período sob o regime militar do ditador Augusto Pinochet. O estudo serviu de base para que Barrientos, em 2004, desse início a uma outra investigação sobre o tema, intitulada “A nova normatividade das condutas sexuais no Chile”, cujo objetivo é analisar como as orientações normativas da sexualidade têm mudado nos últimos anos, especialmente no norte do Chile. Participaram do estudo 526 pessoas, de ambos os sexos, entre 18 e 69 anos, num estudo quantitativo, e 50 entrevistados na fase qualitativa. “Orientações normativas referem-se a valores, atitudes e normas que regulam a sexualidade”, explicou ele, em conferência no Instituto de Medicina Social da Uerj, no dia 17 de outubro.

“As mudanças são lentas e às vezes contraditórias”, afirmou o pesquisador e professor de Psicologia Social na Universidad Católica del Norte. “Muita gente acredita que a revolução sexual do final dos anos 60 produziu essas mudanças. Não existe uma relação de causa e efeito, o que existe é uma sexualidade construída de maneira circunstancial. Antes, as normas estavam fora do sujeito, ditadas pelo Estado e pela Igreja. Agora existe uma autonomia da vida privada. Estamos mais autônomos, ainda que este processo tenha características especiais em nossos países, onde existem enormes diferenças entre ricos e pobres”.

Não que o Estado e a Igreja estejam menos fortes no Chile, observou Barrientos. Ao contrário, a forte presença da Igreja Católica no país segue inconteste, o que faz com que o Chile, por exemplo, continue sendo um dos três países na América Latina a proibir o aborto sob qualquer circunstância, sem exceções. Apenas, mostra o estudo, estes dois poderes perderam terreno dentro da esfera privada. “As relações sexuais estão imersas num processo de negociação entre os pares. Cada vez importa menos o que Igreja e Estado dizem”.

Segundo ele, os discursos sobre sexualidade no Chile são muito conservadores, mas, a despeito disso, as práticas são mais liberais. “Parece-me que aqui no Brasil ocorre o contrário: o discurso é muito liberal e as práticas sexuais mais conservadoras. A idéia que europeus e americanos têm de que o Brasil seja um paraíso sexual não corresponde à realidade”, analisou. “Os chilenos não consideram o discurso. Quando passam a ter relações sexuais o que importa é o que as pessoas querem fazer”.

A norma de iniciação sexual é um exemplo disso. Os jovens chilenos estão tendo sua primeira relação sexual mais cedo. A pesquisa de Barrientos mostra que, nas coortes estudadas nascidas em 1950, os homens iniciaram-se aos 18 anos e as mulheres aos 20. Nas coortes nascidas em 1975, os homens iniciaram-se aos 16 e as mulheres aos 18 anos. Antes, as mulheres iniciavam-se sexualmente em razão do casamento ou por amor, hoje em dia, elas também se iniciam por atração.

“É bom lembrar que as mudanças foram muito mais observadas em mulheres jovens de classes média e alta, que são mais autônomas. Por outro lado, grande parte das gravidezes, entre elas as indesejadas,acontecem entre as mais pobres. Estas não podem pedir a seus maridos que usem preservativo, pois eles não aceitam”, disse o pesquisador.

Segundo Barrientos, a classe social é um fator importante. Em 2003, lembra ele, a pílula do dia seguinte foi aprovada, mas somente as mais ricas podem comprá-la por ser muito cara.

Quanto ao uso de preservativos, a quantidade custeada pelo Estado ainda é insuficiente. “Existem também mitos em torno do seu uso que precisam ser desconstruídos, como o que diz que o prazer com preservativo não é o mesmo. Por outro lado, o que fazer quando o Estado diz ao jovem para usar, enquanto a Igreja manda não usar?”, questionou.

A pesquisa apontou também uma maior intolerância em relação à infidelidade e à homossexualidade. O pesquisador lembrou que, no Chile, até 1999 as relações homossexuais entre homens eram ilegais, devido à penetração e que ainda é muito frequente a ocorrência de atitudes homofóbicas naquele país.

Faça o download do paper apresentado por Jaime Barrientos

Publicada em: 18/10/2005

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