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Brasil
Homosexualidad y carnaval

O rei momo e o arco-íris: homossexualidade e carnaval no Rio de Janeiro de Fabiano Gontijo (UFPI), Editora Garamond

Por Anna Paula Uziel*

O livro de Fabiano Gontijo entra na agenda do carnaval carioca de 2009, brindando a cidade maravilhosa com uma discussão rica e inovadora sobre um dos aspectos mais pregnantes desta festa que tem tantos contornos distintos, mas é ímpar na centralidade que assume no país, quando se aproxima. Como afirmam Yvonne Maggie e Peter Fry, no prefácio do livro, “o carnaval nunca mais será o mesmo”, depois da leitura de “O rei momo e o arco-íris”.

Fabiano Gontijo afirma que vimos o Rio de Janeiro se tornar, nos últimos trinta anos, “uma espécie de ambiente liberal ou de movida cultural gay”, sem que seja possível tirar do horizonte tratar-se de um “remanejamento de limites”.

Pesquisa recente da Fundação Perseu Abramo sobre homossexualidade no Brasil buscou “investigar as percepções (indicadores subjetivos) sobre o fenômeno de práticas sociais discriminatórias em razão da orientação sexual e da identidade de gênero das pessoas, bem como manifestações diretas e indiretas de atitudes preconceituosas”**.

Ao procurar saber qual grau de preconceito acredita-se ter em relação às pessoas LGBT no Brasil, o índice, com variações para cada uma das letras da sigla, girou em torno dos 90%, apesar de apenas 6% dos entrevistados ter sido considerado com grau muito alto de preconceito, medido através da concordância ou não com frases que são conhecidas sobre homossexualidade. Com essa estratégia, buscava-se escapar de posicionamentos politicamente corretos, evidenciando preconceito velado.

Duas hipóteses construídas a partir da pesquisa despertam a atenção e podem propiciar um bom diálogo com as idéias lançadas no livro de Fabiano Gontijo: a presença de piadas sobre gays e lésbicas, a criação de personagens caricaturais evidenciam ao mesmo tempo tolerância social e reprodução do preconceito; e a idéia de que a homossexualidade é uma opção revolta aqueles que acreditam que a escolha nesta direção é um erro. Uma citação do livro reforça esta primeira hipótese da pesquisa: “Rio, cidade repressora? Ou, ao contrário, cidade permissiva? Tudo parece levar a crer que há momentos, espaços e situações em que a liberdade de expressão dos modos de vida mais heterogêneos e distintos predomina e é posta em prática ritualmente, em particular através da diversidade de manifestações que compõem o festival anual do carnaval”.

A marca identitária, tão presente na obra de Fabiano Gontijo, também apareceu destacada acima pelos pesquisadores que fizeram a análise dos dados obtidos. Uma das idéias nas quais Fabiano se apóia, é que o objeto da antropologia constitui-se pelas “relações entre pluralidade-alteridade-identidade”. Neste sentido, os rituais seriam fundamentais nas re-elaborações de identificações. Por isso o autor aposta que o carnaval “é um momento fundamental na produção identitária homossexual”. No primeiro capítulo o professor faz ranger seu campo de saber, apresentando as contribuições da antropologia para o estudo das homossexualidades. A heteronormatividade e as problematizações em torno da categoria identidade sustentam parte das discussões. Apontando para reformulação de fronteiras entre o permitido e o desejável, Gontijo afirma: “tem-se a impressão de que, com o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e do elevado consumo advindo das facilidades eletrônicas, entre outros fatores, as referências identitárias multiplicaram-se, fragmentaram-se e diversificaram-se, levando ao surgimento (ou, pelo menos, à vulgarização) de processos identitários cada vez mais dinâmicos, contextuais, situacionais” (p. 28). E este capítulo permite entrar na intimidade dessas figuras que se modificam ao longo das décadas de 60, 70, 80 e 90. Visitando variados estudos antropológicos e sociológicos sobre o carnaval, o autor supõe que “a festa “abrasileirada”, marca o início do ciclo de verão e reúne situacionalmente a ordem e a desordem, o cotidiano e o jogo, o sistema social e a anarquia, deslocando tudo aquilo que os simboliza” (p. 44).

As ruas e as homossexualidades se encontram no segundo capítulo, nas bandas e nos blocos. Remontando ao final do século XIX, acompanhamos um pouco da história nada linear desses coletivos que ocupam cada vez mais os espaços da cidade durante o carnaval. Recortes da imprensa dividem com Fabiano as impressões e os sentidos das aparições das manifestações de rua, e ajudam a localizar as primeiras notícias sobre “homens vestidos de mulher”, nos anos 70, mas é apenas em 1980 que um jornal fala abertamente da presença de gays na Banda de Ipanema (p. 68), e os anos 90 marcam uma exaltação das homossexualidades nas bandas, que destacam também figuras com as travestis e as drag queens. “Desde então, quando se fala de irreverência, liberdade, brincadeiras, mas também de “GLS” e drag queens durante o carnaval, pensa-se automaticamente nas bandas; quando se fala de travestis, pensa-se nos bailes do Scala” (p. 121). E é assim que se inaugura o capítulo seguinte.

O terceiro capítulo apresenta um outro universo distinto: o carnaval de salão. Entre os bailes, os freqüentados por gays são os mais midiáticos. Do século XIX, passando pelos bailes durante a ditadura militar no Brasil, o autor mapeia e descreve estes eventos de forma a nos sentirmos parte deles. Gontijo ilumina os principais personagens, a participação da mídia, e as comparações que faz com percursos europeus nos oferecem mais elementos para compreender as cores brasileiras. Transformistas, travestis, bonecas e seus nomes próprios ou de fantasia escrevem esta parte da história. Para o autor, os bailes se dividem em dois tipos; “de um lado, os bailes organizados em lugares não-'gays' ou mistos, notadamente em casas de espetáculos reconhecidas ou em locais 'pitorescos'; do outro lado, os bailes realizados em lugares 'gays' destinados a um público exclusivamente (ou preferencialmente) homossexual, como as boates noturnas 'gays'” (159). É possível entrar nesses bailes e conhecer seus frequentadores através do olhar atento do autor.

Rito de inversão? Espaço redimensionado? Tempo suspenso? Gontijo se faz essas perguntas e afirma que “o carnaval pode ser visto como um conjunto ritual de integração que permite e torna possível simbolicamente a participação de todas as camadas sociais e de todas as formas de “marginalidade” ou “alteridade” em uma quantidade maior de “mundos”, situações e contextos de interação, para além daqueles aos quais elas estão submetidas na vida ordinária” (p.188). Inspirado em Roberto DaMatta, que aponta para a feminização do mundo no carnaval, Fabiano Gontijo aposta em “uma verdadeira 'homossexualização' do mundo, divulgando progressivamente uma espécie de estética homossexual”. Vale conferir: no livro e nos próximos dias.

* Professora do Instituto de Psicologia da UERJ e pesquisadora associada do CLAM/IMS/UERJ

** Artigo de Gustavo Venturi, em http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/index.php?storytopic=1770, acessado em 16/02/09


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